Luto e Saúde Mental

O processo de luto pode ser realmente muito doloroso. Pode alterar, com grande incisão, a maioria das conceções e dos comportamentos de uma pessoa. Perturba-a forçosamente, desviando-a, de modo acentuado, de todos os seus padrões normais de funcionamento, aos níveis pessoal, familiar, social e profissional.

Não é por acaso que, para falar da morte de um ente amado, e do efeito traumático que teve numa pessoa, em quase todos os textos, as imagens, as metáforas parecem ser insuficientes ou insatisfatórias. A morte de um ente amado é descrita por algumas pessoas como «um grande terramoto», que, num só momento, devastou a sua vida, arruinando-lhe praticamente todas as suas estruturas. Portanto, abalando psicológica, física, profissional, globalmente. Muitas pessoas confessam que estiveram «quase a enlouquecer».

No entanto, o luto, em si, não é uma doença psíquica. Ou seja, não é sinónimo de depressão psicológica ou de outras manifestações patológicas do foro psíquico. De facto, algumas características da pessoa em processo de luto e da pessoa deprimida, sendo comuns, podem ser facilmente confundíveis. Porém, uma pessoa em luto pode não estar necessariamente deprimida. Muitas pessoas em luto desejam ser (ou são aconselhadas por familiares e/ou amigos),desde cedo, medicadas com antidepressivos, isto é, com medicamentos que visam combater a depressão. Isto não facilitará, em muitos casos, a distinção entre um processo de luto e uma depressão, julgando-se que, ao combater as manifestações desta, está a resolver-se o processo de luto. A pessoa em luto que toma antidepressivos pode pensar, e fazer pensar, que passou de uma fase do Ciclo do Luto a outra (devido à supressão ou desaparecimento de determinadas reações, como a angústia, o choro, etc.), quando, na verdade, estas reações não aparecem por estarem inibidas «artificialmente».