Luto e Depressão

É muito frequente, no entanto, que, em alguns processos de luto, se manifeste a Depressão. Esta pode comprometer o desenvolvimento saudável do processo, apresentando-se, com isto, o risco de se estabelecer um Luto Patológico (que mais à frente será referido). Isto pode acontecer sobretudo com pessoas portadoras de determinadas predisposições para a depressão (como, por exemplo, a existência de um percurso pessoal de vida conturbado já antes da morte do ente amado; a hereditariedade; a doença bipolar, etc.) ou que já anteriormente tinham sofrido depressões. Nos casos de luto causado pela morte de um ente amado num homicídio, a probabilidade de se desenvolver uma depressão é muito maior que noutros casos de perda por morte.

Como já foi referido, a depressão pode transformar o processo de luto numa doença. Ou seja, uma depressão pode comprometer o desenvolvimento «normal» do processo, fazendo a pessoa enlutada estancar em determinadas fases do Ciclo de Luto, acabando por suscitar o Luto Patológico. Este pode apresentar-se de diferentes maneiras, estando, no entanto, quase sempre relacionado com o atraso na vivência de determinadas fases do Ciclo ou mesmo com a total recusa e com a permanência de um luto muito intenso e muito arrastado, associado aos tais ideações suicidas ou a sintomas psicóticos. Uma morte inesperada, como a de um filho ou do cônjuge ou companheiro; uma morte que deu lugar a terríveis transformações circunstanciais; ou uma morte violenta são fatores de risco para a formação de um luto patológico. Estudos recentes têm referido taxas consideráveis de lutos patológicos verificados em familiares de vítimas de homicídio, após vários anos.

Outros dois fatores são também importantes: o já referido isolamento social a que se vota a pessoa em luto (por vezes, também por uma opção de «recolhimento», de «maior austeridade» no luto, comportamentos incentivados por determinadas culturas e/ou religiões); e a excessiva dependência em relação ao ente amado (por exemplo, o caso da mulher idosa que dependia do seu falecido marido em quase tudo: no sustento material, nas decisões a tomar, na opinião sobre pessoas e coisas, etc.)._

A Depressão caracteriza-se, sobretudo, por progressivas alterações na saúde mental. A pessoa sofre de um humor diminuído ou oscilante; de falta de energia; de melancolia; de baixa autoestima; de perturbações do sono; e de uma certa incapacidade para efetuar as tarefas diárias, das mais simples às mais complexas. Um cansaço progressivo vai obrigando a um «arrastar-se» com esforço para continuar a sair de casa para o trabalho todas as manhãs. Chega mesmo a pensar que vai «morrer de tristeza».

Podemos distinguir entre Depressão Reativa e Depressão Endógena.

A Depressão Reativa pode verificar-se após um incidente que envolva uma perda significativa (como uma morte, por exemplo). A pessoa deprimida apresenta um humor triste, apatia, desmotivação para a vida ou para a realização de tarefas diárias, etc. Este estado pode prolongar-se mais do que seria esperado normal (aproximadamente um mês), passando a ser então considerada como patológica. No entanto, o facto de se demonstrar um estado depressivo, não significa que exista uma Depressão Endógena.

A Depressão Endógena é estrutural e que já existia como condição clínica. Nestas situações, a perda de alguém vai agravar o estado depressivo, ou seja, agrava-se uma depressão já existente. Enquanto a recuperação das depressões reativas são essencialmente focadas no que aconteceu (na morte de alguém, por exemplo), nas depressões endógenas o processo de recuperação é baseado na história de vida da pessoa doente.

A Depressão, seja Reativa ou Endógena, implica, frequentemente, um progressivo isolamento social, uma vez que tende a sentir-se «desenquadrada» de qualquer grupo e a sentir-se «diferente» dos outros; ou, por outro lado, porque começou a ser evitada pelos outros, que julgam estar desequilibrada (tanto pode estar relativamente «bem disposta», como, de súbito, ser agressiva). Este isolamento pode ocorrer ainda porque a pessoa tem consciência de que está particularmente irritável e teme desagradar e/ou magoar aqueles com quem convive, em especial os familiares e/ou amigos (isto acontece sobretudo quando já viveu anteriores momentos de tensão, provocados pelas suas oscilações de humor), afastando-se, ou evitando estar em grupo.

Uma pessoa deprimida está realmente doente: logo, é conveniente que seja tratada. Quanto mais demorarem o diagnóstico e o tratamento, maior será o rasto de destruição que a depressão vai deixando na vida diária. Não se confunde a depressão com «estados gerais de tristeza» (pela morte de alguém, por exemplo): a depressão é uma doença complexa, dominadora, e pode estabelecer-se cronicamente se não for combatida. Em alguns casos, favorece o aparecimento de outras doenças do foro psiquiátrico e pode, efetivamente, levar à morte.

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De facto, a Depressão pode ser também acompanhada por ideações suicidas, podendo o doente tentar várias vezes matar-se ou podendo mesmo consegui-lo. Em muitos casos, expressa tal intenção, ou «tentação». É importante que seja tomado a sério por quem o escuta. Esta confissão pode ser mais que um «aviso»: pode ser um implícito pedido de ajuda. Alguns suicidas, no entanto, morrem num dia e num contexto em que seria muito difícil alguém perceber que iam cometer suicídio.

Para uma pessoa deprimida, o suicídio pode ser perspetivado como a solução imediata para uma dor que já não suporta mais (ou para uma vida que já não deseja enfrentar sem o ente amado, em casos de deprimidos em luto). As ideações suicidas podem surgir sobretudo no contexto de uma depressão relacionada com a perda de um ente amado que foi vítima de homicídio, ou de homicídio, podendo a pessoa em luto nunca antes ter pensado em suicidar-se.

Estes suicídios são mais frequentes nos homens, que nas mulheres.

Depressão é ainda caracterizada por sintomas de ansiedade. Umas vezes motivada por acontecimentos concretos, ou por sensações muito difusas, a ansiedade limita bastante o bem-estar.

As perturbações de pânico, que são manifestações extremas de ansiedade, caracterizam-se pelo desenvolvimento de ataques inesperados de pânico intenso quando o doente é colocado em determinadas situações particulares, ou devido ao medo de experimentar novos ataques (quando anteriormente sofridos). A causa exata que desencadeia os ataques de pânico varia de doente para doente, bem como a sua frequência. Os ataques de pânico podem ocorrer quando enfrenta situações especialmente difíceis ou cruciais (por exemplo, no ato de reconhecimento do cadáver do ente amado; ou encontrar o principal suspeito por acaso; ir a tribunal testemunhar; ou prestar um depoimento no âmbito do processo de investigação criminal).

No entanto, podem também ocorrer em situações comuns, nas quais supunha nem ser possível sucederem, por serem, à partida, pouco suscetíveis de causar ansiedade. Num ataque de pânico, o doente não consegue controlar uma sensação de medo, emergente, rápido e violento. Tem dificuldade em respirar, sentindo tensão e constrangimento nos músculos do tórax. O ritmo cardíaco aumenta e pode chegar a pensar tratar-se de um enfarte. Também sente dificuldade em ter um raciocínio lógico, bem como em ter noção do tempo e do espaço. Tem ainda dificuldade (ou mesmo experimentar impedimento), em expressar-se verbalmente, não conseguindo pronunciar as palavras, ou construir frases longas (até porque não está a usufruir de uma adequada respiração). Durante o ataque, sente que está entregue a uma espécie de manifestação física superior às suas forças, dada inexplicavelmente em contextos e momentos que, em alguns casos, já eram habituais e nos quais nunca tivera problemas de desempenho. Frequentemente, após o ataque, mantém-se a vigência da ansiedade, sentindo-se os seus efeitos negativos no corpo (por exemplo, tendo dores de cabeça, cansaço e dores musculares) por vários dias, durante os quais se sente prostrado.

A fobia social é outra das características da depressão. Está fortemente associada a um medo persistente de estar inserido em situações sociais diversas (por exemplo, estar num restaurante, num autocarro, numa reunião de trabalho, com amigos, etc.). O doente tende a evitar situações de convívio social, pois estas causam-lhe ansiedade ou angústia que, muitas vezes, são para si inexplicáveis. Estar com outras pessoas, mesmo que não seja forçoso interagir com estas (por exemplo, cumprimentar e/ou conversar), pode tornar-se, então, angustiante. Depois de uma, ou de várias situações sociais (por exemplo, num só dia), podem seguir-se vários dias de tristeza profunda. Nessas situações, pode ocorrer um ou mais ataques de pânico.

Outra das possíveis alterações ao nível da saúde mental da pessoa em processo de luto é a do surgimento de pensamentos obsessivo-compulsivos. É uma alteração menos descrita, mas trata-se de uma reação enquadrada no processo de luto normal, sendo observável sobretudo na Fase da Crise e na Fase da Desorganização do Ciclo. Particularmente nas primeiras semanas ou meses do Ciclo do Luto, alguns pensamentos obsessivo-compulsivos inibem a capacidade de concentração da pessoa, que pensa, de modo constante e intenso, no ente amado. A sua atenção diminui e tende a esquecer-se de pequenas tarefas ou coisas do quotidiano (por exemplo, de onde deixou as chaves, onde estacionou o carro, etc.). Num caso de morte num homicídio, a concentração da pessoa está toda em torno da imaginação dos detalhes da morte do seu ente amado (quando não testemunhou o crime) e nos aspetos de que se recorda (por exemplo, na receção da notícia da morte, ou no momento em que viu o cadáver, etc.). No entanto, quando estes pensamentos se verificam durante anos, poderão constituir um sério problema de saúde mental.

É, em muitos casos, aconselhável que a pessoa seja medicamente acompanhada, devendo evitar-se, sempre, que esta se medique a si própria, ou que outras pessoas, não qualificadas, o façam ou aconselhem a fazer, facilitando-lhes comprimidos e outros medicamentos, do seu próprio uso ou do uso de outrem. A pessoa precisa, geralmente, da ajuda de alguém da sua confiança para tomar corretamente os seus medicamentos, para que não suprima (por descuido ou por decisão própria) a toma sem ordem do seu psiquiatra, nem exceda a dosagem recomendada. As pessoas doentes podem obter melhores resultados quando são ajudadas por um familiar e/ou amigo a avaliar as melhoras sentidas e/ou os efeitos secundários da toma de determinada medicação. Deste modo, pode cooperar com o seu psiquiatra na alteração do protocolo seguido, ou na sua substituição.