Luto Patológico

Certos aspetos observáveis num processo de luto possibilitam a deteção de um Luto Patológico. Um deles é o Luto Negado durante muito tempo, com ausência de expressões de luto, logo na Fase da Crise. A pessoa simplesmente não admite que a morte ocorreu. Age como se esta nunca tivesse sido, sequer, noticiada. Não admitindo a morte como um acontecimento histórico, a pessoa não conseguirá desenvolver um processo de luto saudável, uma vez que se recusa a iniciá-lo.

Trata-se de uma «negação psicológica integral», ou de uma «negação doentia da morte», diferente da que, na Fase da Crise, costuma observar-se. A pessoa, com enorme dificuldade em aceitar a realidade da perda, procura negar o que é inegável. Para isso, «prisioneira do seu próprio cenário», desenvolve comportamentos que colocam a morte do ente amado à margem do decurso quotidiano (por exemplo, não integra no seu discurso a informação de que ele morreu, falando como se ele ainda estivesse vivo; não participa nas exéquias; não trata de assuntos legais relacionados com sucessões e partilhas; não faz qualquer alteração nos seus hábitos diários; mantém todos os pertences do falecido exatamente como se ele vivesse e fosse chegar a todo o momento para os usar). Tudo continua a decorrer numa aparência de normalidade, o que chega a chocar familiares e/ou amigos, que julgam alguns destes comportamentos uma demonstração de frieza, de falta de afeto e de respeito para com a memória do ente que morreu. Esta dificuldade é mais expressiva em situações de morte inesperada, como a provocada por homicídio.

Também observáveis são as reações desmedidas para expressar o luto. A pessoa tende a ter comportamentos inusitados e desproporcionados, já fora da Fase da Crise: portanto, já desenquadrados das reações tidas nos primeiros tempos após a receção da notícia da morte do ente amado (por exemplo, chorar compulsivamente em contextos sociais em nada relacionados com o ente amado ou com a sua perda; recordar o ente amado e gritar de angústia num local público, etc.).

Segundo alguns autores, alguns casos de processos de luto são, de facto, irresolúveis. Mês após mês, ano após ano, o luto arrasta-se de fase para fase, sem que se possa aplicar-lhes, numa leitura linear, o Ciclo do Luto. As pessoas enlutadas não fazem uma natural evolução de fase para fase, até ao fim. E, doentiamente, perpetuam a passagem de fase, sem que o Ciclo possa terminar. Da Fase da Adaptação passam novamente para a Fase da Crise, sem fim para as suas tormentas – estão aprisionadas num Luto Crónico, também chamado por alguns de «Ciclo Perpétuo da Dor».

O estabelecimento de um Luto Crónico dependerá essencialmente da estrutura psicológica da pessoa que o desenvolve, resultando da incapacidade de esta estrutura se adaptar ao acontecimento traumático da perda e de realizar o próprio luto (e aqui podem influir muitas e complexas variáveis, como acima foi explorado), mas também da qualidade de apoio prestado no processo por amigos, familiares e profissionais.

Alguns aspetos observáveis na pessoa em luto podem delinear um esboço da sua tendência para desenvolver um Luto Crónico:

  • Um abrupto e intenso processo de luto começado apenas alguns meses depois da notícia da morte, sem que, até aí, não houvesse manifestações de luto, ou houvesse poucas;
  • Uma perturbação aguda, observável num período de três a seis semanas depois da receção da notícia da morte, com manifestações de choro e contínuo lamentar; profunda angústia; raiva persistente; culpabilização pronunciada; e autorrecriminação;
  • Quando não passou à Fase da Organização do Ciclo do Luto cerca de um ano após a morte do ente amado;
  • Tensão permanente, incapacidade de repousar e intensa saudade, mesmo depois das primeiras semanas após a receção da notícia;
  • O sentimento de que ninguém pode compreender a sua dor e/ou ajudá-la a sair do seu luto, mesmo após várias semanas após a receção da notícia.

A avaliação das circunstâncias particulares em que um processo de luto se transforma em doença parece constituir a solução mais adequada para determinar a atitude a ter, por familiares e/ou amigos, ou por profissionais, para apoiar devidamente a pessoa enlutada. Se para umas pessoas são suficientes o calor humano, a força solidária de parentes e amigos, certos gestos simbólicos, a vontade de evoluir de fase para fase e também o apoio profissional, para outras, a complexidade e o perigo do processo, ao nível psicológico, requerem a intervenção especializada nas áreas da Psicologia e da Psiquiatria. Estas pessoas, sem este apoio especializado, e nomeadamente sem uma adequada medicação, podem ficar entregues a um mundo interior cada vez mais tenebroso, permanecendo encerradas na infelicidade. Poderão acabar, assim, por destruir-se a si próprias e por destruir as relações com os que as rodeiam.