Fase da Crise

Inicia-se invariavelmente aquando da receção da notícia da morte e abre o período mais súbito e chocante do processo de luto. O choque poderá ser, no entanto, mais atenuado se a pessoa tiver pensado que aquela notícia, de facto, era inevitável, a curto prazo. De qualquer modo, a pessoa experimenta sempre um embate emocional. Este impacto pode ser sentido por muitas horas, chegando a durar uma semana inteira. Pode ser interrompida por repentinas explosões de aflição e de ânsia. A tensão arterial aumenta, bem como o ritmo cardíaco.

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Ocorre também, nesta fase, uma «dormência» ou «torpor», que é consequência natural do choque vivido, na qual a pessoa sente que «flutua sobre os acontecimentos», com a vaga sensação de que está a viver um pesadelo, ou seja: que não está totalmente acordada e consciente da realidade. É como se estivesse «anestesiada».

É frequente incluir-se nesta fase uma negação emocional da perda. A primeira reação de muitas pessoas é, justamente, a negação imediata da notícia, manifestando repulsa (por exemplo, empurrando agressivamente a pessoa que dá a notícia, ou mesmo agredindo-a) e tendo expressões de rejeição (por exemplo, gritar: «Meu Deus, não pode ser! Não é verdade! Não pode ser!»). É muito comum, quase geral, que a pessoa necessite de receber mais informações sobre a morte, complementares e desenvolvidas, para assimilar a notícia (por exemplo, perguntar de imediato quando ocorreu a morte, como, onde está o corpo do ente amado, etc.).

Ainda que tenha aceitado a perda racionalmente, a pessoa que perdeu o ente amado tende a comportar-se como se não tivesse ocorrido, de facto. Trata-se de uma defesa emocional imediata em relação a um sofrimento agudo. Certos gestos subtis podem estender-se no quotidiano, denunciando que a pessoa não quer acreditar que o ente amado morreu (por exemplo, mantendo intactos e limpos os seus objetos pessoais; mantendo a sua última mensagem ou chamada telefónica na memória do telefone; referindo-se ao ente amado como se ainda estivesse vivo, etc.).

Também são frequentes os casos em que a pessoa apresenta as suas desculpas a quem é devido apresentá-las (por exemplo, aos familiares mais próximos do falecido), explicando a sua ausência nas exéquias com o seu desejo de recordar o ente amado apenas com «as boas lembranças de quando ele vivia», e não com lembranças dos rituais fúnebres, ou mesmo do cadáver. Algumas chegam mesmo a afirmar não querer participar nas exéquias para não admitir que o ente amado, com efeito, morreu. Noutros casos, desculpa-se simplesmente com um «Não gosto de funerais».

Outra forma de negação é uma repetida questionação (por exemplo, «Porque tinha de morrer o meu marido e não outro?», etc.) cheia de ira e de revolta; de desejo de vingança; de medo e de ansiedade. Esta negação, nestes primeiros tempos é considerada normal, mas, se persistir, poderá ter implicações negativas no desenvolvimento saudável do processo de luto, concorrendo para configurar um luto patológico, que adiante será abordado. Tratar-se-á de uma negação doentia.

Podem inscrever-se nesta Fase da Crise momentos tão dolorosos como o dever de comunicar a morte do ente amado aos outros familiares, amigos e conhecidos. A pessoa sente-se desconfortável, pois não só não consegue pensar na melhor forma de o comunicar, como se vê obrigada a suportar, por instantes que seja, as reações dos outros (sobretudo, choro compulsivo, negações, perguntas, confusão, etc.).

Outro dever que cabe cumprir a alguma das pessoas da família, ou a algum amigo, pode ser o da identificação do cadáver, se esta for necessária. A visão do ente amado morto, despido e metido quase anonimamente na mesa de uma morgue – e em tantos casos de atos homicidas, desfigurado por uma morte violenta – pode ser um momento muito doloroso. A realização da autópsia também pode ser uma necessidade suscetível de perturbação para quem imagina que, depois de uma morte violenta, o corpo do ente amado sofrerá também a exposição a exames forenses, sendo «aberto e remexido».

Em muitos casos, só depois de muitos dias de diligências médico-legais, de notícias nos órgãos de Comunicação social e de sofrimento para quem perdeu um ente amado, podem ser realizadas as exéquias. Estas constituem geralmente um momento de grande importância no processo de luto. São, para muitas pessoas, o momento mais traumático depois da receção da notícia. É nesta ocasião que se deparam com a «materialidade da morte», ou seja, com a evidência material de que o ente amado realmente morreu, vendo o seu cadáver, ou vendo a urna funerária onde se encerram os seus restos mortais. As exéquias podem ser, para algumas, o momento de expressão de emoções (por exemplo, gritando e chorando, ou insultando alguma pessoa, presente ou ausente, que considere culpada daquela morte), como que aproveitando «as últimas horas», ou «os últimos instantes», de «contacto» com o seu ente amado. Outras vivem as exéquias num profundo abatimento, ou mesmo numa apatia, quer estejam medicadas ou não. O silêncio para elas é o lugar de toda a intimidade, de todo o «contacto», ou de «despedida» do ente amado. Só depois das exéquias, expressam as suas emoções.

Na Fase da Crise, por fim, a pessoa em luto «sente a presença do ente amado» com muita frequência, «vendo», «ouvindo», tendo a impressão de que este continua vivo (por exemplo, que continua a ocupar o seu quarto de dormir, a sua secretária, o seu cadeirão de leitura, etc.), tornando-se muito sensível a quaisquer estímulos exteriores que estejam associados, pela memória, àquele/àquela que perdeu (por exemplo, ao perfume que usava, à cor e à música que preferia, etc.). Frequentemente, a pessoa em luto pensa que está «a ficar louca».

Toda a Fase da Crise é povoada por medos, sentimento de insegurança, desejo de vingança, expressões de raiva (por exemplo, chorar, gritar, socar objetos), culpa «por não ter feito nada para impedir» (mesmo que lhe fosse impossível fazer algo). Alguns autores referem uma espécie de «teste à realidade», ou de «provar o real», a que a pessoa se submete a si própria, inconscientemente, para encarar algo que, por tendência defensiva, preferia ignorar: a morte do ente amado. Daí que peça, com insistência, todas as informações disponíveis sobre o que realmente aconteceu, para, de facto, «crer na verdade do que aconteceu».

Em alguns casos, a informação disponível pode ser muito limitada, pois parte dela está sob Segredo de Justiça, sendo usada unicamente para fins de investigação criminal. A pessoa tende a não aceitar esta limitação, ficando ansiosa sobre «o que estarão a esconder-lhe», tornando-se desconfiada e agressiva em relação aos próprios investigadores, com os quais seria importante, pelo contrário, colaborar.

Em muitos casos, a Fase da Crise inicia um longo período de dificuldade para a pessoa, o qual só será ultrapassado quando esta estiver na posse de um real, completo e claro entendimento do que foi a morte do ente amado. Isto terá especial relevo nos casos de homicídio, nos quais o processo de investigação criminal, a identificação de pessoas suspeitas, a sua detenção, acusação, julgamento e condenação são determinantes. O sentimento de que foi feita justiça em tribunal, para além de inibir os frequentes desejos de vingança (ou de «justiça pelas próprias mãos»), ajuda a desenvolver saudavelmente o Ciclo do Luto. Isto, contudo, nem sempre é possível, ou pode demorar muito.