Fase da Desorganização

Esta fase ocorre quase sempre uns dias depois da morte do ente amado e das suas exéquias já cumpridas, sobretudo, o velório e funeral, restando, em alguns casos, outras liturgias, a realizar em datas posteriores à sepultura. Em alguns casos pode, no entanto, surgir umas semanas depois, na medida em que tiver demorado a Fase da Crise e na intensidade que esta teve.

A morte do ente amado deixa uma sensação de vazio e um sentimento de desorientação. A vida, num repente, parece ter perdido o sentido. Tudo se desorbita e as perspetivas de entendimento e organização da vida pessoal, nos seus mais variados aspetos e interseções, começam a sofrer de uma grande desorganização.

Passados os momentos mais marcantes e públicos da morte do ente amado (por exemplo, a receção da notícia, o reconhecimento do cadáver, a profusão de peças nos órgãos de Comunicação Social, a realização das exéquias, etc.), passa todo um imediatismo e chega o peso dos dias que tem de enfrentar – em casa, na família, nas relações de amizade, no trabalho. Se aqueles momentos já passaram (já foram «resolvidos», do ponto de vista prático), a pessoa em luto tem agora algo não menos difícil para resolver: a sua vida, abalada pela perda, cheia de desafios.

A vida, então, poderá ser vivida com ansiedade e medo. Em alguns casos, não se tratará de algo imaginado ou difuso – a ansiedade e o medo prendem-se naturalmente com a existência de um processo de investigação criminal que está a decorrer, no qual a pessoa vai colaborando, mas de cujo desenvolvimento pouco vai sabendo. Ansiosa, poderá temer que o processo esteja «parado», que não haja interesse por parte das autoridades competentes ou que não seja mesmo possível descobrir-se a identidade dos autores do homicídio e que, portanto, estes não possam ser detidos, acusados, julgados e condenados. Este panorama acentua o medo de vir a ser uma próxima vítima, ou de algum membro da sua família estar sob o olhar assassino de alguém que se desconhece, mas que pode estar perto. A ansiedade e o medo poderão aumentar se alguns aspetos da investigação criminal indiciarem que este poderá atacar de novo e se, para o prevenir, algumas pessoas tenham de passar a estar vigiadas para sua segurança.

Nesta fase, a pessoa em luto sofre de desalento e a sua dor pode ser tão angustiante que facilmente acredita, de novo, estar «prestes a enlouquecer»: tudo ameaça ruptura e caos. Tende, por isto, a tornar-se irritável, reagindo de maneira negativa e brusca a determinados estímulos, por pequenos e inócuos que sejam. Pode tornar-se agressiva e até injusta com os que a rodeiam, chegando a ser indiferente ao sofrimento que lhes provocou. Sente, por vezes, que nenhum sofrimento poderá ser maior que o seu.

05 ajudar

Uma amargura quase instalada pode durar semanas, meses, até anos, não podendo prever-se quando se dará a passagem a uma nova fase do Ciclo. Tentando sobreviver o melhor possível, a pessoa em luto, sobretudo se tiver apoio direto de familiares e/ou amigos e de profissionais especializados, pode retomar, aos poucos, a energia de uma vida ativa, redefinindo estratégias e figurando novas perspetivas de futuro. Para alguns, esse é, no entanto, um trabalho árduo, cheio de «avanços e recuos». Para outros, passa por uma dissimulação da tristeza, de modo a veicular uma imagem de segurança e confiança para a família (sobretudo quando têm filhos pequenos) e para os amigos, o que, inevitavelmente, conduz a um maior isolamento e a estados de desamparo.

Nesta fase, domina a saudade. Trata-se da recordação da «falta que faz quem que não está presente» ou da «ausência de quem se ama», um sentimento ligado ao desejo do seu regresso – um regresso impossível. A saudade é, muitas vezes, uma recusa da própria perda, numa incapacidade de abdicar da presença do ente amado, como se a recordação permanente, devidamente suportada por símbolos e rituais específicos (por exemplo, mantendo inalterado o quarto de dormir do ente amado, etc.).

A saudade está também ligada à agressividade, numa recusa violenta da realidade da morte. Frequentemente, uma pessoa em luto passa da saudade à raiva, por já não poder ter o ente amado. Em casos de homicídio, esta raiva está intensamente ligada ao ódio pelos responsáveis pelo homicídio e ao desejo de vingança.

A saudade é um sentimento universal, mas com expressões profundas em determinadas culturas (por exemplo, na cultura portuguesa). Estas acabam por facilitar a sua permanência constituindo-se em aspeto negativo, já que deixa, em muitos casos, de ser algo transitório para ser persistente. E, enquanto persistir, o processo de luto não pode desenvolver-se de modo saudável.

Outro aspeto importante desta fase (e em especial, na vivência da saudade) é a busca persistente, por parte da pessoa em luto, do ente amado, em símbolos, celebrações, rituais comemorativos, locais votivos, etc. Trata-se, em parte, da vivência de aspetos culturais (e, em muitos casos, religiosos), que acabam por configurar muitos aspetos do processo de luto. Podem, aliás, facilitá-lo, sendo considerado positivo, de uma forma geral, que estes atos sejam realizados, participando neles quem, de acordo com a sua consciência, de acordo com a sua religião, quiser atribuir novos significados à morte de alguém, em especial o de se gerar uma união, uma solidariedade entre os familiares, os amigos, por vezes uma comunidade inteira, em torno da memória do ente amado que perderam. Podem ser celebradas diversas liturgias (de cariz religioso ou não), com leituras (por exemplo, de textos da autoria do ente amado; poemas; etc.); podem ser feitos discursos (por exemplo, cada um dar o seu testemunho sobre a relação que tinha com o ente amado); ou podem ainda ser utilizados símbolos e rituais (por exemplo, plantar uma árvore; lançar flores a um rio; fazer uma visita à sua sepultura, deixando ali flores e candeias acesas, etc.). Para celebrar a memória das vítimas de atos homicidas, muitas cidades erguem monumentos públicos, que recebem as homenagens dos familiares e amigos das vítimas, ou de pessoas anónimas, em especial no aniversário da sua vitimação.

Estes atos podem facilitar, com efeito, uma passagem desta Fase à seguinte. Com o tempo, e se o processo de luto for desenvolvido de modo saudável, uma progressiva libertação vai ocorrendo. A perda do ente amado foi já totalmente assimilada e a vida começa a ser perspetivada com renovação. A perda do ente amado e a dureza do processo de luto dão lugar a uma maior serenidade.