Luto em Amigos

São de grande importância os amigos de uma pessoa em luto. Esta espera deles tudo aquilo que se concebe geralmente da amizade – companhia, presença, afeto e fidelidade em todos os momentos, até no momento trágico da morte. Não é raro encontrar pessoas em luto que esperam mais dos seus amigos que da sua própria família. À família percecionam-na como previamente vinculada a si – o que implicará acreditar que o seu apoio é incondicional e garantido. Dos amigos esperam a confirmação de um vínculo estabelecido na sua própria história pessoal.

A pessoa em luto espera, por isso, e de modo muito especial, que se aproximem aquelas pessoas que, não sendo seus familiares, consigo partilharam tantos momentos da vida, geralmente plenos de bem-estar emocional, alegria e festa. Espera, de modo geral, a fortaleza emocional que não tem nos momentos mais dramáticos, a presença, o conforto sentido numa proximidade física (por exemplo, num abraço grande e emotivo dado por um amigo), palavras de consolação ou mesmo o silêncio compassivo que se faz diante de uma tragédia, quando todas as palavras parecem ser poucas, ou pobres.

Na Fase da Crise, quando se recebe a notícia da morte, geralmente todos os seus amigos, mesmo os menos íntimos e até os amigos dos amigos, a visitam ou contactam para manifestar a sua solidariedade, assumindo um apoio incondicional (por exemplo, com expressões de grande compromisso, como «Conta comigo para o que precisares»; «Os amigos são para os bons e para os maus momentos»). Em muitos casos, este apoio é bem recebido e está sobretudo presente nos momentos mais críticos, como são os primeiros dias depois da receção da notícia da morte ou a celebração das exéquias. Em muitos casos, se a pessoa em luto contactar um desses amigos, sentindo-se só e pedindo ajuda, obterá, sem hesitação, o seu apoio.

Com efeito, os amigos são-lhe fundamentais, sobretudo em momentos mais penosos do processo de luto. Além de assegurarem que a sua solidão não é total – motivada em tantos casos pela perda de um ente amado com quem coabitava (por exemplo, pai, mãe, filho, marido), podem ajudar na expressão dos sentimentos, acolhendo as confidências e lamentos; e na racionalização das emoções, quando estas se encontram no limiar do descontrolo, ou fazem sofrer a pessoa na configuração de uma visão pessimista, derrotista, da sua vida e do seu futuro: quando sente que «nada mais faz sentido», ou mesmo que «não valerá a pena viver mais».

Tais momentos mais penosos não se confinam unicamente à Fase da Crise. Estendem-se pelo processo de luto na sua continuidade. Os amigos continuam a ser fundamentais, mas a verdade é que, em muitos casos, nem todos prosseguem a sua presença no processo, ausentando-se da vida da pessoa em luto.

Em muitos processos de luto, verifica-se que, por múltiplas razões, a maioria dos amigos que, na Fase da Crise, estavam disponíveis para prestar apoio deixam de o estar. Na Fase da Desorganização, isto torna-se evidente – a sua ausência pesa e agrava o processo de luto, porque, agregada à perda do ente amado, há também a perda de amigos.

Na Fase da Organização, alguns desses antigos amigos já nem são considerados amigos e, num processo de luto saudável, outros amigos vão surgindo. Os novos amigos serão, aliás, sinal de que o processo de luto está a desenvolver-se adequadamente e, organizando uma nova vida, a pessoa em luto foi capaz de conquistar, ou aceitar, novas pessoas na sua rede relacional. Estes novos amigos farão parte de uma necessária renovação da vida, com a qual a pessoa assume a adaptação à realidade da perda, ultrapassando as suas mais avassaladoras consequências e perspetivando a felicidade como horizonte possível.

A perda de amigos durante o processo de luto é uma das mais difíceis constatações para uma pessoa que está em sofrimento pela morte – que é a maior das perdas – de um ente amado. Infelizmente é uma conclusão a que chegam, geralmente na Fase da Desorganização. À perda do ente amado, somam-se as perdas daqueles que deixaram de estar próximos. Algumas pessoas chegam mesmo à conclusão de que, afinal, não tinham tantos amigos quantos julgavam ter, aplicando à situação alguns provérbios, que na sua sabedoria generalista confirmam que essa conclusão poderá estar mesmo certa (por exemplo, «Nos maus momentos é que se veem os amigos»; ou «Mais vale poucos mas bons»; «Antes só que mal acompanhado», etc.»).

Na ausência dos amigos, sondam-se as razões desta. A pessoa em luto percebe, em muitos casos, que foi ela própria a afastar-se durante o processo, quer porque estava sob o poder das suas fortes emoções, de uma grande tristeza, de uma tendência para o silêncio e para o isolamento; quer porque os amigos seguiram a sua vida quotidiana, plena de afazeres e de obrigações profissionais e familiares, deixando de estar tão presentes.

Em alguns casos, o afastamento da pessoa em luto dos seus próprios amigos foi consciente e defensivo. Pode torna-se muito angustiante reunir, ou mesmo contactar por telefone, com amigos que sejam uma permanente lembrança de um mundo que para ela acabou com a perda do ente amado (por exemplo, Alexandra N. e seu marido, João N., eram amigos de Ana L. e seu marido, Mário L., com quem costumavam estar muitas vezes e passar férias juntos. Depois do homicídio de João N., durante um assalto a um supermercado, Alexandra N. preferiu afastar-se progressivamente dos amigos – não tinha consigo o marido falecido, sentindo-se só. Também lhe era extremamente penoso olhar para aquele casal, com quem tinham passado tão bons momentos).iStock 000016766293XSmall

Outra situação frequente é o progressivo, ou imediato, afastamento dos pais em luto dos círculos de convívio familiar e/ou social outrora habituais. Tendo perdido os seus filhos, afastam-se de amigos seus que têm filhos. Estas crianças ou adolescentes, ao continuarem a crescer aos seus olhos, fazem-nos recordar-se constantemente daquele malogrado filho ou filha, perdido/perdida para sempre, que, por isso, não teve oportunidade de crescer como eles (por exemplo, Manuel D. e Matilde D. deixaram de visitar e até de telefonar a Joaquim F. e a Susana F., um casal com dois filhos pequenos, depois de terem assassinado o seu filho Hugo N., que era da mesma idade que aquelas crianças, com quem costumava brincar sempre que os seus pais conviviam). As crianças vivas, alegres, dinâmicas e desenvoltas, podem ser para os pais em luto a imagem incessante dos seus filhos mortos, olhando-as num ambíguo misto de ternura e de profunda angústia.

Para uma pessoa em luto, paradoxalmente, a tranquilidade e a felicidade dos seus amigos pode ser um peso permanente, a memória viva de que, para elas, toda a tranquilidade e felicidade não passam, agora, de uma recordação pungente.

Isto não significará, no entanto, que desejam aos seus amigos a mesma infelicidade, o fim dessa sua vida livre da perda e do luto, desconhecendo o que é viver-se aprisionado nestas realidades.

Confusas, desiludidas com a ambiguidade das suas emoções, receando que os outros se apercebam da angústia que um simples episódio da vida familiar alheia pode provocar no seu interior, preferem prescindir da sua companhia, não obstante o afeto que continuam a ter por eles, não obstante a alegria que continuam a sentir ao reencontrá-los, não obstante a saudade que sentem dos «bons velhos tempos».

Por seu lado, estes amigos, não entendendo a reação de constante desprendimento do/a amigo/a enlutado/a, e depois de várias tentativas de aproximação, acabam por desistir, por vezes magoados e até zangados. O esforço que a pessoa em luto faz muitas vezes para parecer bem disposta e tranquila sempre que os encontra, numa espécie de encenação do que não possui (a felicidade, de novo), também não é favorável. Imaginando o/a seu/sua amigo/a já recuperado/a da sua perda, tendem a cumprir esse afastamento com um vago sentimento de terem sido injustiçados nas suas boas intenções, de desprezo face à sua amizade e ao apoio que lhes prestaram, ou mesmo indignados com a aparente arrogância com que aquele/a parece tratá-los (pensando, por exemplo, que «Agora que já tudo passou, já não lhe somos mais precisos», ou que «Só lhe servimos para os maus momentos, agora que já está bem só nos despreza»).

Por outro lado, a pessoa em luto pode, de facto, «perder amigos» porque estes simplesmente não são capazes de permanecer na sua companhia no difícil processo do luto. Habituados a amizades fáceis, ou mesmo superficiais, ligadas sobretudo ao lazer, ao prazer e ao desprendimento de vínculos afetivos mais íntimos, extensos e profundos que o mero convívio em tempos felizes, alguns amigos não conseguem (ou não querem) suportar um amigo que agora viva ao contrário de toda a boa disposição e de todo o divertimento. Em muitos casos, nunca houve, naquela amizade, grandes sinais de intimidade, extensão ou profundidade da sua parte (portanto, nunca houve sequer um vínculo «realmente afetivo»), mas, num momento de adversidade, é dele que a pessoa em luto necessita, contando com o seu apoio imediato e disponível.

No fundo, espera desses amigos todo o apoio que, de uma forma geral, as pessoas esperam dos seus amigos, sejam eles mais ou menos chegados. Poderá, pois, ser para ela uma desilusão, ou mesmo uma traição, o afastamento dos seus amigos quando deles mais precisa.

A tendência da pessoa em luto parece ser a de esperar que esses amigos, mais tarde ou mais cedo, possam vir falar-lhe sobre o seu luto, compreendê-lo num diálogo íntimo e reconfortante. Idealizam este momento e pensam em palavras de afeto e de segurança, ou num abraço durante o qual possam chorar à vontade a sua perda. Ou seja, esperam que, pelo menos, num qualquer dia, aqueles amigos sejam corajosos o suficiente para vir até si quebrar o seu silêncio e cessar o seu afastamento, lançando o desafio de se falar sobre temas tristes, diametralmente opostos aos que costumavam debater (temas, por exemplo, relacionados com música, futebol, locais de diversão noturna e política), ou simplesmente reforçar a sua presença amiga, apesar de toda a sua aparente recusa em relação ao convívio que antes tinham.

Acontece, no entanto, e não raras vezes, que a pessoa em luto acaba por desistir desta espera, convencendo-se que a vastidão da sua dor, a sua presença sombria em qualquer ocasião, a sua pouca disposição para divertimentos, e até a sua irritabilidade e agressividade, foram causadoras de uma inibição desses amigos. Em alguns casos, desiste dessa espera, já convencida da pouca qualidade daquela sua antiga amizade, qualidade essa que nem chegou para lhe garantir, numa tão profunda dor, um apoio mais que o meramente circunstancial, ou intencional. Isto é, um apoio restrito à Fase da Crise, e ao momento da notícia da morte, quando todos manifestam o seu pesar, sejam amigos ou simples conhecidos.

A pessoa em luto, pelo contrário, necessitava e requeria de um amigo muito mais que isso. Necessitava e requeria aquele apoio que ousasse estender-se pelos dias fora, pelas semanas, pelos meses e até anos, enquanto o Ciclo do Luto durasse: um apoio que não se reduzisse às poucas palavras e aos poucos gestos circunstanciais na Fase da Crise, mas que se fizesse presente com muitos sucedâneos ao longo do tempo, sobretudo na Fase da Desorganização. Ou seja: um apoio que soubesse ser insistente, e, logo, consistente – «palpável».

Com isto, pode chegar ao convencimento de que não foi capaz de selecionar as «verdadeiras amizades», de fazer «bons e duradouros amigos»; que, na verdade, não é, e nunca foi, amada por eles (pelo menos o suficiente para merecer a sua coragem contra a imensidão da sua dor). E que, por fim, está muito só. Muito mais só que o que julgava estar, quando se deu a morte do seu ente amado e nos primeiros tempos depois desta.

Esta constatação, no entanto, pode impelir a pessoa em luto para a busca de novas relações sociais, e, no contexto mais ou menos vasto destas, para a busca de novos amigos. Apesar da sua possível timidez, ou inibição, face à possibilidade de fazer novas amizades (sobretudo se tiver ficado desiludida com os seus «antigos amigos»), a necessidade de conviver e de desenvolver novas relações afetivas, compensatórias, poderão ser sinal da sua entrada na Fase de Organização. Novos amigos poderão, nesta fase, trazer novos perfis e novos tempos, uma renovação progressiva da sua vida, na riqueza do conhecimento de novas personalidades, no estabelecimento de novas interações e até de novas perspetivas sobre a amizade. Com tudo isto, inevitavelmente a pessoa em luto terá oportunidade de prosseguir na sua reestruturação enquanto pessoa.

Por fim, aos amigos que sempre a acompanharam por todo o processo de luto, e que souberam permanecer apesar de todas as instabilidades e dificuldades deste, tenderá a devotar-lhes um grande reconhecimento e um especial afeto, quer já fossem amigos muito chegados à data da morte do ente amado (por vezes, amigos de há muito), quer se tivessem revelado mais próximos em tal circunstância. Num ou noutro caso, poderão ser extremamente valorizados na continuidade da sua história pessoal, testemunhando a fortaleza que neles encontrou nos piores momentos da sua vida e, agora, nos novos horizontes que se conquistam.