Luto em Crianças

Os adultos têm geralmente o benefício da experiência, podendo perspetivar a perda com maior segurança. Esse não é o caso das crianças.

Enquanto os adultos podem ter descoberto previamente várias maneiras de enfrentar a dor – tendo estabelecido estratégias para a ultrapassar, já que outros conseguiram fazê-lo – as crianças não possuem este referencial. São surpreendidas pela morte de um ente querido (tantas vezes, do seu próprio pai, ou da mãe) e não sabem o que é a morte, nem, por consequência, como lidar com ela.

Sem dúvida, todas as crianças podem viver uma perda por morte em grande profundidade. Até os bebés sofrem as perdas, tendo consciência de que algo abrupto, inesperado e triste aconteceu, perturbando o ambiente que os rodeia. Facilmente, são atingidos pela carga emocional dos adultos em redor. Como não dispõem ainda de palavras para expressar a perturbação, fazem-no muitas vezes por comportamentos que evidenciam a sua aflição pela ausência de alguém a quem amavam e por quem eram amados (por exemplo, chorando, deixando de dormir, tendo diarreias, etc.).

Em famílias que estão em luto, é frequente as crianças ficarem à margem das preocupações, ou serem vitimadas pela incapacidade emocional dos adultos para lidarem com a perda. O sofrimento das crianças duplica-se – por um lado, sofrem, como os adultos, a contundência da perda; por outro, sofrem a falta de cuidados destes, quer porque estão muito absorvidos nos seus próprios lutos, quer porque não sabem como ajudá-las.

Porém, as crianças precisam de ser ajudadas, não devendo os adultos descurar as características do seu luto. Com este, as crianças aprendem uma das realidades mais claras da existência humana: que todos os seres humanos nascem, vivem e morrem. Aprender a aceitar a morte é, sem dúvida, uma das lições mais importantes que uma criança aprende na vida. Depois de uma primeira perda, de um primeiro luto, muitas outras perdas e muitos lutos terá que de viver na sua vida futura, tanto quanto mais longa esta vier a ser. É uma incontornável exigência da existência humana.

O Ciclo de Luto das Crianças

iStock 000001127587XSmall

As crianças devem de ser consideradas num processo de luto, tanto ou mais que os adultos. Em muitos casos, ninguém repara sequer nos seus sentimentos aquando da perda de alguém da sua família, ou da sua amizade. Não poucas vezes, o seu silêncio esconde a sua imensa tristeza e forma um enorme abismo entre os seus sentimentos e a reação do resto de um grupo – geralmente a família – à morte de um ente amado.

São particularmente graves os casos em que este é o seu próprio pai, ou a sua mãe, na medida em que as crianças investem quase toda a sua energia emocional nos pais. Fica-lhes, então, uma sensação de vazio, vivida de modo doloroso e impressivo.

Este vazio é agravado pela ausência de linguagem, no caso das mais pequenas, ou pela existência de um vocabulário limitado, nas mais crescidas, no qual as poucas palavras são pobres para descrever a imensidão do seu luto. É que, com efeito, poucas palavras, ou um vocabulário limitado, nunca foram sinónimo de poucos ou limitados sentimentos.

Nas crianças, a compreensão desta realidade humana torna-se fundamental para entender a amplitude da sua perda e a necessidade que têm de ser apoiadas para desenvolver um processo de luto saudável.

É justamente nas palavras que reside parte do sucesso do apoio prestado a uma criança em luto. Frequentemente, ao silêncio da criança e à pouca atenção que os adultos lhe prestam numa situação de perda, junta-se todo um léxico estranho, para o qual a criança não está preparada. Assim, mais dolorosa se torna a sua situação de «marginal» ao processo de luto dos adultos, que ignoram a confusão que se instala na mente desta quanto a conceitos desconhecidos, como «morte», «passamento», «trânsito», «jacente», «defunto», «falecido», «sepultado», «finado», «cremação», «pêsames», «corpo», «alma», «jazigo», etc. Estes conceitos, que comportam em si dimensões e reflexos trágicos da própria vida humana, não raramente apelam a uma compreensão metafísica, religiosa ou espiritual desta, o que, para a criança, remete para um mundo abstrato por vezes muito difícil de compreender.

Não raras vezes, a mente da criança tenta encontrar sozinha algumas soluções de compreensão destes conceitos, já que os adultos à sua volta não se preocuparam em explicar-lhas, ou não foram corajosos ou emocionalmente capazes de o fazer. A criança, ao ouvir (por exemplo, nas conversas entre adultos e durante a celebração de exéquias) ou ler (por exemplo, nos epitáfios de um cemitério) certas frases, como «Dorme em Deus»; «Que a sua alma descanse em paz»; «Aqui repousam os restos mortais de N.», «Que Deus Nosso Senhor perdoe os seus pecados»; «Era bom e justo, por isso Deus veio buscá-lo», «Nasceu para a vida eterna», «Aleluia!», etc., passa, então, a tentar compreender certas significações. Estas nem sempre serão tranquilizadoras, pois o que entenderá de cada palavra remeterá sempre para aquela perda – uma realidade sempre dramática, por mais que dela se digam frases que remetam para uma vida metafísica. A sua compreensão de realidades espirituais pode ser, aliás, muito limitada.

Assim, a confusão da criança aumentará. Pode tentar compreender literalmente tais conceitos (por exemplo, pensar que se diz que a pessoa que morreu «dorme em paz», porque efetivamente está a dormir, etc.) ou confundi-los com outros conceitos (por exemplo, «trânsito» no sentido de transitar da vida terrena para a vida eterna por trânsito de transitar na estrada, com automóveis, etc.). Em alguns casos, esta compreensão literal dá lugar a grandes angústias, ao contrário de apaziguar a criança (por exemplo, a criança pensar que a pessoa que morreu está a dormir numa cama com tampa (a urna funerária) e que depois é enterrada durante o sono, sufocando sob a terra); bem como a confusão de conceitos lhe causa grande estranheza e inquietude (por exemplo, pensar que «Deus levou-o para o Céu» significa que literalmente esse ente desconhecido a que chamam Deus veio das nuvens e arrebatou aquele que tanta falta lhe fazia, o pai, a mãe, passando a imaginá-lo com frio, solto sem asas em pleno céu, sob ameaça de cair do próprio vento; ou conceber o céu como um espaço imenso cheio de chuva e de trovões, ou onde algum avião pode atropelá-lo, etc.).

A imaginação da criança é fecunda e pode também conduzir a ideias pouco positivas, assumindo formas inusitadas e nem por isso felizes. Nos casos de atos homicidas, as crianças podem viver sob o medo constante, receando ser atacadas, ou que a família que lhes resta seja morta.

As crianças vivem também um Ciclo do Luto, próprio e distinto daquele que geralmente vivem as pessoas adultas. Compreender este ciclo é compreender minimamente as características gerais, ou possíveis, do processo de luto de uma criança em particular. Só desta compreensão por parte dos adultos poderá criar-se um espaço emocional onde a criança possa fazer o seu luto abertamente.

O Luto no desenvolvimento das crianças

As crianças têm, tal como os adultos, maneiras muito próprias de expressar os sentimentos relativos à morte e perda de um ente amado. Mas, mais que nos adultos, a idade parece ser um fator a considerar. Assim, há que ter em conta que as crianças mais pequenas têm uma noção limitada da permanência da morte, embora a reconheçam como uma evidente separação de alguém a quem amam, podendo reagir a esta com uma profunda tristeza – com o início de um processo de luto.

Entre os cinco e os oito anos, encontram-se num período de desenvolvimento caracterizado por certo carácter «mágico»: julgam que bastará formular um desejo para que, de uma forma ou de outra, ele se concretize. É frequente entenderem, pois, a morte como uma ausência temporária do ente amado e desejarem que este volte à vida. Neste sentido, tendem a interpretar determinadas palavras com um sentido mais próximo, ou mesmo imediato (por exemplo, julgarem que a «ressurreição eterna», tantas vezes falada na liturgia das exéquias cristãs, terá um efeito sobre a pessoa que morreu em breve tempo, dois dias, três, algumas semanas, até que volte tudo a ser como antes era, com o pai ou a mãe ressuscitados junto dela, etc.). Por outro lado, pode acontecer terem desejado a morte precisamente àquele ente amado, de forma inocente e inconsequente, ficando convencidas que foram as reais culpadas daquela morte, que, com efeito, veio a acontecer depois. Esta situação, possível e talvez mais frequente do que se supõe, pode trazer angústia e sentimentos de culpa. A criança pensa que desejou e, logo, aconteceu.

As crianças com idades entre os oito e os dez anos ficam com frequência perturbadas com a morte, que olham com curiosidade. Fazem idealizações da morte (por exemplo, personificada pela imagem de uma mulher de aspeto sinistro, ou por uma espécie de fantasma); e atribuem-lhe uma função moral, julgando que a morte vem buscar quem, de alguma maneira, transgrediu «a ordem universal do Bem e do Mal», ou então veio buscar quem mais amavam, porque não estiveram sempre do lado do Bem (portando-se mal, mentindo, batendo noutra criança, por exemplo). Há aqui um sentimento de culpa, que nem sempre expressam e que, por isso, dificilmente é percecionado pelos adultos.

A partir dos nove anos de idade, no entanto, as crianças tendem a entender a morte como uma realidade irreversível e podem expressar a sua perda e o seu luto em maior proximidade com a própria expressão dos adultos.

O Ciclo do Luto tem três fases:

  • Fase da Crise
  • Fase da Desorganização
  • Fase da Organização

Tal como para os adultos, para as crianças, estas fases não são necessariamente rígidas. Cada criança, num contexto específico de perda, viverá o seu Ciclo do Luto com a extensão e a intensidade, com a sua demora e ritmo próprios, num dinamismo evolutivo único. É preciso, uma vez mais, considerar que o luto é um processo, não sendo um caminho linear, nem tendo um padrão fixo.