Fase da Crise

Nesta fase, a criança pode experimentar sensações de choque, torpor e recusa da realidade. O choque da perda tem manifestações tanto ao nível físico como psicológico. Entre as alterações físicas, registam-se geralmente o aumento da pulsação, da tensão muscular, da transpiração; secura das mucosas bucais, relaxamento das entranhas e da bexiga e mudanças respiratórias, sobretudo inspirações mais curtas e contínuos e profundos suspiros.

Estas reações podem surgir em vagas de apenas alguns momentos ou duram várias horas, sentindo-se a criança enfraquecida e exausta, sendo qualquer tarefa do quotidiano um enorme esforço para prosseguir. A aceitação da perda custa-lhes muita energia, mas o seu cansaço não deve ser visto, à primeira vista, como ameaça – tratar-se-á unicamente de uma resposta natural à morte de quem amavam.

Em certos casos, as crianças, pelo contrário, parecem não ter reação à notícia da perda. Recusando-a como verdade, como facto histórico, continuam a referir-se ao ente falecido como alguém que continua vivo, usando inclusivamente o Presente do Indicativo e a perguntar aos adultos quando é que ele volta, como se a morte fosse uma viagem com regresso. É com estranheza que os adultos vêm a sua apatia, ou indiferença, perante a perda, que é historicamente evidente. Em alguns casos, até, as crianças viram o cadáver durante as exéquias. O choque provoca esta reação de ausência, na verdade tão pouco fiel aos seus sentimentos, onde a angústia domina. A calma aparente de uma criança ao receber a notícia da morte de alguém é aliás uma reação frequente.

As primeiras reações de uma criança à notícia da morte de um ente amado podem ser muito superficiais e, por isso, enganadoras. Porém, ocultam geralmente uma perturbação atordoante, de tal forma que chega à apatia. Constata, no entanto, que a sua vida mudou para sempre. Em parte, as suas reações são depois desencadeadas pelas expressivas reações dos adultos à sua volta. De qualquer modo, estas reacções das crianças tendem a focar-se sobretudo em aspetos práticos da sua vida (por exemplo, perguntando, ao saber que a sua mãe foi morta: «Então e agora quem é que me leva todos os dias à escola?»), parecendo que não perspetivam a longo prazo uma perda dramaticamente irremediável.

Trata-se também de congregar toda a sua atenção num centro de interesse imediato, desviando sentimentos insuportáveis de angústia e de medo. Não é raro haver crianças que, numa circunstância de tanta dor, e nos dias que se seguem à receção da notícia da morte, se entreguem a atividades lúdicas e desportivas, como se o gasto de energia física pudesse ocupar a sua mente e distanciá-la de uma realidade tão dura.

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Nos dias seguintes à receção da notícia da morte, as crianças tendem a agir mecanicamente. Apesar da falta de energia, não deixam de sorrir sem mostrar os seus sentimentos, ou de parecerem alheadas da realidade do luto familiar. Por vezes, esta linearidade de comportamento é interrompida por explosões de fúria, súbitas e fortes, e crises de choro incontrolável. Esta introspeção, apenas quebrada por esporádicas (e por vezes inesperadas) avalanches de lágrimas, pode durar horas, ou semanas.

À medida que a perda do ente amado começa a ser assumida, o torpor alterna com a angústia, que começa a ser cada vez mais evidente aos olhos dos adultos. Podem surgir, então, sintomas físicos como o eczema nervoso e a enurese, ou, se já se verificavam, agravam-se.

Em termos de comportamento, os rapazes têm tendência, nesta Fase da Crise, para se tornarem hiperativos e agressivos, ao passo que as raparigas tendem a apegar-se mais aos adultos e a mostrarem-se menos expansivas.

No desenvolvimento infantil, é por volta dos cinco ou seis anos de idade que as crianças atingem o chamado «pico de intenso medo da morte». Se a perda de um ente amado coincide com esta etapa, o processo de luto será acentuado pelo medo que a criança sente de ser ela a próxima a morrer. Não é raro haver crianças que, na plena vivência de um processo de luto, acreditem que a sua vez de morrer está próxima, como se a morte acontecesse de forma linear, como uma espécie de lista de vivos a abater, previamente definida. É a ideia de uma funesta multiplicação do efeito que as crianças temem. No caso de uma morte causada por um homicídio, este medo poderá ser aterrador, pois temem que venham também matá-las.

A sua insegurança emocional é grande, manifestando-se em comportamentos defensivos evidentes (por exemplo, estar a vigiar todas as portas, verificar se estão trancadas por dentro, chegando mesmo a barricá-las com móveis; dormir vestido para fugir no caso de aparecer um assassino; dormir com uma arma branca sob a almofada, etc.), mas também em comportamentos de dependência dos adultos, nos quais procuram proteção imediata (por exemplo, buscarem colo constantemente, abraços, quererem estar sempre de mão dada; ou dormir na cama dos pais, etc.).

A constante necessidade da companhia do familiar mais chegado (por exemplo, a mãe, ou o pai) estará não só relacionada com esta dependência, como também com o medo de sofrer uma nova perda – desta vez, de mais um ente amado. Acreditam que, se estiverem junto dele, talvez não aconteça de novo a morte. Nesta Fase, as crianças sofrem geralmente de grandes insónias. O seu corpo está em estado de alerta, preparado para reagir imediatamente a determinados perigos (o de aparecer um homicida, por exemplo).