Fase da Desorganização

Nesta Fase, as crianças manifestam estar num período bastante agudo do seu processo de luto. Ocorre quase sempre uns dias depois da morte e das exéquias já cumpridas. Em alguns casos, pode, no entanto, surgir umas semanas depois, na medida em que tiver demorado a Fase da Crise.

Neste período, facilmente a criança busca acusar alguém da ocorrência da morte do ente amado: um adulto com quem convive (por exemplo, o pai, uma tia, etc.). Mesmo havendo já um autor conhecido ou um suspeito do homicídio, a criança poderá acusar um outro adulto que, totalmente inocente daquele crime, para ela poderá servir como recetor de toda a raiva que lhe emerge agora.iStock 000021944591 ExtraSmall

A revolta é uma reação bastante frequente numa criança em processo de luto, sobretudo nesta segunda fase do Ciclo do Luto. Esta revolta pode ocorrer contra esse adulto que serve de objeto de toda a sua raiva, ou desfocalizar-se genericamente, sendo contra todos os adultos ou contra o mundo inteiro, ou, numa direção ainda mais abstrata, contra Deus, que não impediu a morte e o sofrimento.

A revolta, no entanto, é tida como uma resposta natural a qualquer tipo de perda, uma reação construtiva e ativa. Será, pelo menos, um sinal de energia, um novo impulso de sobrevivência emocional. É preciso ter em conta que muitas crianças manifestam a sua angústia, a sua impotência diante da morte, não com palavras, mas com gestos. Num repente, a criança pode tornar-se insuportável para os adultos à sua volta, também eles a viver o seu próprio luto.

Nesta fase, pode haver uma recusa e uma descrença na morte do ente amado. Em sonhos, podem sentir a sua presença, superando, ou «esquecendo», a sua morte. A fantasia auxilia-as como única maneira de aliviar a dor da perda. Serve também de ganho de tempo a um período trágico das suas vidas, como que uma «trégua».

A recusa pode ser problemática para os adultos, que, por vezes, não entendem que esta é apenas um escape; e, além disso, um testemunho da capacidade criativa das crianças, que são capazes recriar um mundo perdido, do qual constam ainda os fortes laços afetivos que as uniam ao ente amado. Desejar tê-lo de volta, pensar nisso e sonhar com isso, é, para as crianças, um espaço reconfortante e apaziguador. Afinal, dentro delas, num qualquer lugar da sua memória, aquela pessoa (tantas vezes aquela que mais amavam) continuará viva.

As brincadeiras com outras crianças podem sofrer alterações. As crianças em luto podem ser incapazes de brincar com as outras crianças, preferindo atividades solitárias. A presença de um adulto poderá ajudar no seu ajustamento às brincadeiras, mas, num processo de luto, nem sempre esta presença – que deve ser atenta e delicada – é garantida. Afinal, os adultos que a rodeiam estão, geralmente, a viver o seu próprio luto e já é para eles um grande esforço cuidarem das mais básicas necessidades da criança (por exemplo, dar banho, vestir, alimentar, levar à escola, etc.), restando-lhes pouca energia para brincar, ou mesmo conversar, com elas.

Nesta fase, pode ocorrer uma regressão, provocada por uma excessiva ansiedade. A enurese noturna pode ser um dos sinais deste «regresso» a comportamentos que já tinha deixado de ter. Alguns adultos não entendem este acontecimento no contexto do processo de luto, censurando, humilhando ou mesmo castigando a criança. Estes comportamentos vêm prejudicá-la, mais que ajudá-la. Agravam, em consequência, a dificuldade que a criança está a viver no seu processo de luto. Também as crianças que ainda usam fralda podem demorar mais tempo a deixar de usar.

A enurese pode ser um problema muito sério para uma criança. Frequentemente, precipita-a numa sensação de estar à margem das outras crianças, tentando que tal realidade seja um segredo para que estas não a discriminem. Este «segredo», mesmo que guardado por uma família compreensiva, torna-se difícil de manter se a criança cheira a urina com frequência ou se alguma outra criança (por exemplo, na escola, ou mesmo dentro da família alargada) o descobre. As crianças podem ser cruéis para os seus pares: facilmente aquela criança, cujo comportamento não compreendem, se tornará o alvo preferido, recorrente e atormentado das suas investidas, humilhando-a e até agredindo-a fisicamente.

Em alguns casos, a criança em processo de luto passa mesmo a sofrer de enurese diurna. Esta situação nem sempre desperta a compreensão dos outros, sofrendo a criança a pior das humilhações: ser vista com as suas roupas molhadas, ou a sua urina ser vista a correr pelas pernas. Estes episódios provocam maior ansiedade.

Nesta fase, a criança pode ter problemas de alimentação (por exemplo, comer menos, ou comer excessivamente); roer as unhas; ter perturbações do sono e pesadelos; sofrer um aumento de reações alérgicas (por exemplo, o eczema e a asma). Nas crianças mais pequenas, têm sido descritos comportamentos como chuchar no dedo, embalar-se de um lado para o outro, manifestar desejo de alimentos macios, manifestar desejo de serem abraçadas: tratar-se-á de uma recordação inconsciente de um tempo em que viviam o conforto, quando não tinham conhecido a dor da perda do ente amado.

O processo de luto das crianças implica, tal como o dos adultos, uma saudade intensa. A imaginação de uma criança pode recompensá-la numa perda, inventando cenários onde o passado adquire contornos fabulosos. É frequente a criança inventar as suas próprias estórias, espécie de «versão alternativa» da morte daquele ente amado. São geralmente uma mistura do carácter mítico dos contos infantis que conhece com alguns elementos biográficos de que se recorda, ou que ouve contar aos adultos sobre o ente amado. Pode ser saudável esta nova elaboração da realidade, quando as crianças controlam, simbolicamente, o curso da vida, ao vencerem a morte e trazerem de volta o seu ente amado. Não parece haver, aqui, o desenvolvimento de um Luto Patológico, desde que haja à sua volta adultos que saibam aproveitar estas ocasiões para falar com elas com afeto e sabedoria suficientes para explorar sentimentos e emoções e, assim, vencerem juntos, pelos símbolos e pelas palavras, o sofrimento do processo de luto. O papel dos pais, dos outros familiares, dos amigos, dos profissionais, em especial dos educadores e professores, é, pois, fundamental.

A saudade imprime nas crianças, tal como nos adultos, um gosto por conservar recordações, objetos e locais relativos ao ente amado, uma atitude que numas culturas é incentivada e até exacerbada e, noutras, considerada mórbida e doentia. Independentemente das tendências culturais, a saudade pode ser redimensionada numa «positividade da memória». Isto é, pode adquirir contornos sobretudo positivos, gratificantes: de um «bom recordar», ou de um «bem lembrar» o ente amado. Pode catalisar, assim, a memória que se tem deste para a construção de uma aceitação pacífica da sua perda e para a continuação de uma vida psicologicamente saudável. Também as crianças podem descobrir que, sendo a perda irreversível, lhes ficou, porém, a memória dos bons tempos (e, em muitos casos, o exemplo de bom carácter deixado pelo ente amado), sobre a qual podem perspetivar um futuro com esperança.

A aceitação do carácter definitivo da morte é, além de uma aproximação da próxima fase do Ciclo do Luto, uma importante aprendizagem da vida humana. A uma criança, como a um adulto, poderá ser útil saber que a morte existe, que na vida humana podem perder-se entes amados. Embora duramente, ficará mais preparada para enfrentar novamente tal experiência num futuro que é comum a todos os seres humanos.