Fase da Organização

Esta é a fase da aceitação. Descrita como um conflito entre a necessidade de um «deixar-se arrastar pelos dias», numa tristeza instalada e quotidiana, e «o desejo de manter-se firme e combativo», esta tensão entre a memória de um passado conhecido e a perspetiva de um futuro desconhecido é o eixo determinante para a resolução do processo de luto e o encerramento do Ciclo.

A aceitação é o ponto mais importante do processo de luto de uma criança. É nele que se ajusta à realidade da perda, com êxito. Não significará isto que alguma vez venha a esquecer o ente amado ou a deixar a sentir saudade. Todos os sentimentos da criança serão, agora, transfigurados em recordação – ou seja, em memória gratificante de alguém a quem se amou, o que não será sinónimo de traição. Sente que deixar de acreditar que o ente amado regressará, não significa atraiçoá-lo.

No entanto, podem surgir alguns sinais de desgaste físico, com constipações, dores de garganta, indisposições do estômago, fadiga geral. O sistema imunitário torna-se mais vulnerável.

Pode também continuar um medo constante da morte. Ao saber que a morte faz parte da vida, que acontece a todos os seres vivos, incluindo os humanos, que pode ocorrer de maneiras variadas, que é definitiva, a criança passa a saber que esta pode acontecer a si própria e aos que a rodeiam. Muitas crianças continuam a recear que algum familiar morra também, fazendo-a reviver o sofrimento causado pela perda daquele outro ente amado.

Há também um aspeto importante no luto das crianças: os sonhos. Os sonhos podem ser um dos acontecimentos mais angustiantes da vida de uma criança. Por vezes, a tendência das famílias é guardar certo silêncio, tratando os sonhos como um assunto essencialmente privado, pessoal. Também é comum que não procurem qualquer sentido, ou significado, para os sonhos em determinados momentos, nem procurem relacioná-los com alguns acontecimentos da vida. É, pois, bastante frequente que as crianças comunguem desta atitude das suas próprias famílias e, tal como os adultos, não falem dos seus próprios sonhos, considerando-os algo de «secreto».

Uma criança em processo de luto pode vir a nunca relatar os conteúdos dos seus sonhos. Estes passam, assim, a fazer parte da sua solidão e da sua angústia. Os sonhos de uma criança, nestas circunstâncias, refletem geralmente os sentimentos negativos que a assolam depois da morte do ente amado. Maior será a sua dificuldade no processo de luto.

No entanto, os sonhos podem ser, em muitos casos, uma descarga de tensões emocionais. Proporcionam à criança a possibilidade de aliviar, momentânea ou definitivamente, a ansiedade que sente, ou os conflitos provocados pela violência dos seus sentimentos negativos. Certos sentimentos associados à destruição e ao desejo de vingança, que podem estar muito presentes num processo de luto derivado da morte provocada de um ente amado, podem encontrar nos sonhos a necessária vazão. A criança pode, no entanto, viver angustiada por causa da recordação dos conteúdos desses sonhos, podendo ser importante que tenha o apoio dos seus familiares, dos seus educadores e/ou de outros profissionais para interpretar e gerir estes conteúdos.