Luto na Família

O processo de luto, como tem vindo a ser entendido, é um processo pessoal. Mas a morte de alguém provoca quase sempre a existência simultânea de diversos processos, pois a pessoa que morreu teria diferentes relações: amorosas, familiares, de amizade, de simples convívio diário no local de trabalho. Um processo de luto nunca decorre, de uma forma geral, sozinho ou afastado dos outros processos.

Os processos de luto são, no entanto, processos dinâmicos.

Ou seja, de uns processos de luto para os outros, há permuta, reciprocidade, ambiguidade, rivalidade, e uma grande complexidade de sentimentos. Isto pode acontecer, em especial, quando a morte ocorreu no seio de uma família e várias pessoas entram em luto ao mesmo tempo por causa dessa mesma perda. Será, aliás, uma situação bastante frequente, pois, geralmente, a pessoa que morreu tinha família e, se não coabitava, mantinha uma relação muito estreita, unida pelos laços de parentesco e pelos laços afetivos decorrentes de uma história pessoal de muitos anos, marcada pela vinculação e pela confiança mútua.

A família, por isso, sente-se muito atingida pela perda. Esta representa um abalo na sua estabilidade, resultante do sofrimento emocional profundo dos seus membros. Em alguns casos, este é tão intenso que a família não resiste e desagrega-se, havendo corte de relações e divórcios.

Diversos fatores podem estar na origem desta degradação da estrutura familiar:

  • A idade de cada um dos membros da família, incluindo o que morreu. Geralmente, aceita-se mais facilmente a morte de um familiar já idoso que de um familiar ainda jovem (por exemplo, aceita-se melhor a morte de um avô de oitenta anos, que de um irmão de vinte e cinco).

A morte de pessoas de idade avançada é considerada uma «morte natural», pois, de certo modo, «viveram até ao limite», ou «viveram muito». A morte de um familiar idoso é mais assimilável pela estrutura da própria família: esta perspetiva-a como algo inevitável e que acontece para «dar lugar a outros», ou para que outras gerações perpetuem a família no tempo. Já a morte de um elemento durante a infância, na juventude ou na vida adulta (mas em idade considerada socialmente «ativa») é vista como uma rutura nesta continuidade, além de ser considerada «antinatural», uma vez que se crê (e deseja) que as crianças e os jovens devem viver até serem idosos.

Contam também as idades dos vários elementos da família. Os mais novos, como as crianças e os adolescentes, tenderão a ter dificuldades de compreensão da morte de um familiar, mesmo que este fosse muito idoso. Os adultos podem «projetar-se» na morte de um familiar da mesma idade, ou adulto, vislumbrando nela a imagem da que poderá, um dia, vir a ser a sua própria morte;

  • O papel que desempenhava a pessoa que morreu na hierarquia familiar. É importante o posicionamento que tinha na própria estrutura familiar, nomeadamente quanto ao parentesco. De um modo geral, os filhos aceitam com muita dificuldade a morte dos seus pais, em especial se ainda forem crianças e/ou adolescentes, ou estejam a viver em sua casa. Ao faltar o pai ou a mãe, ou ambos, a família, tal como estava «classicamente» formada (pai, mãe e filhos), sofre uma fragmentação. Os pais que perderam um filho, ou filhos, também terão dificuldade em manter a família a salvo da desintegração. Muitos perdem o sentido da vida familiar e conjugal, sobretudo se não houver outros filhos e se havia problemas de relacionamento anteriores ao luto. A separação ou o divórcio são frequentes nestes casos;
  • O grau de poder que exercia a pessoa que morreu. Neste aspeto, é muito importante considerar os níveis de dependência que havia em relação à pessoa que morreu por parte dos outros familiares, designadamente ao nível da tomada de decisões, da gestão da vida familiar e da providência económica. Assim, estes perdem uma parte considerável da sua organização familiar, ou mesmo das condições básicas para continuar uma coabitação. Tanto pode ser determinante a perda daqueles que garantiam o sustento material (por exemplo, o pai e a mãe, que trabalhavam e pagavam a renda, as despesas domésticas e a educação de dois filhos universitários); como aqueles que tinham capacidade de governar uma casa com eficiência, providenciando a satisfação de necessidades básicas (por exemplo, a mãe que era doméstica e garantia sozinha a alimentação e a higiene diárias). São também importantes os modos como esse poder era exercido pela pessoa que morreu: se benevolente, se autoritário; se com a sua autoridade reconhecida pelos outros ou não. Perdida a pessoa, perderam-se os poderes que ela exercia num campo próprio (e certas famílias têm uma definição muito clara de papéis, sobretudo as mais conservadoras). Se estes poderes não são agora exercidos, a estrutura familiar não pode ser a mesma. Em alguns casos, a inexistência de substitutos no uso do poder, as transferências de poder para outros elementos ou a usurpação do poder por estes, acabam por significar sérias ruturas na estrutura da família;
  • O seu envolvimento afetivo com os restantes membros da família. Por fim, este será um dos aspetos mais determinantes. A qualidade de uma família estabelece-se, sobretudo, pelos laços afetivos que une os seus diferentes membros, e não tanto os laços de parentesco.

Numa família em que o envolvimento afetivo é grande e expressivo, a morte de um dos seus membros é sempre percecionada como uma perda significativa, seja qual for a sua idade, o papel que desempenhava ou o poder que exercia na hierarquia familiar. Mais que a perda de um parente, é uma perda afetiva. Se a pessoa que morreu era especialmente expressiva nas manifestações de afeto, mais a sua ausência será notada nas dinâmicas familiares. A estrutura familiar ressente-se necessariamente, pois com a pessoa desapareceu um dos eixos estruturais, que suportava, dinamizava e revitalizava as relações com afeto. Isto acontece sobretudo na perda de pessoas que eram especialmente expansivas, compreensivas e gregárias no seio da sua família.

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A maneira como são geridos os vários processos de luto individuais numa mesma família decorre, em parte, da estrutura e do funcionamento dessa família. A ajuda mútua será uma ótima via de favorecer o desenvolvimento de cada um dos processos, se a família já estava capacitada para a dar. Se a sua vivência era afetuosa, dialogal, respeitadora, emocionalmente estável, poderá reunir condições para reagir em conjunto a um acontecimento tão traumático como a morte de um dos seus membros.

Se, pelo contrário, a família era um lugar de constantes tensões e de conflitos (antes da ocorrência da morte), pode ver agravados os seus problemas. Os seus membros, ao invés de estenderem ajuda uns aos outros, podem viver situações de rutura, sobretudo na Fase da Desorganização, quando, passado o imediatismo da receção da notícia da morte e todas as reações próprias da Fase da Crise (como o choque e o torpor, por exemplo), se defrontam com períodos mais amplos, cheios de dificuldades. As diferenças na maneira como cada um vive o seu próprio processo de luto tenderão a ficar acentuadas e a gerar discordâncias, discussões e separações.

As famílias, enquanto comunidades humanas básicas, são muito diversas na sua maneira de ser e de estar.

Cada família corresponde a um perfil único. Para além da singularidade de cada pessoa que a integra, há uma série mais ou menos extensa de fatores que a tornam complexa e diferente: o número e as idades dos membros que a compõem; a sua história passada; as suas condições habitacionais e sociais; a religião que professam; a sua diferenciação académica; os seus gostos culturais; o seu nível socioeconómico, entre outros.

Apesar das diferenças próprias de cada uma, é possível classificar as semelhanças que têm entre si quanto à capacidade de aceitar, compreender e gerir os sentimentos dos seus membros. Não esgotando outras possíveis classificações, podem ser divididas em dois grandes grupos, extremos na sua maneira de ser e de estar.

  • As famílias que não expressam abertamente os seus sentimentos. Nestas famílias, não costuma haver tolerância para os seus membros no que diz respeito às «coisas invisíveis», isto é, aos sentimentos (que não são físicos, ou materiais). Frequentemente, estas famílias tentam focar-se em meros aspetos «palpáveis» de um problema, ignorando, ou desprezando, aqueles que não se veem (por exemplo, se um filho disser que está deprimido, a tendência é para dizer que «está cansado após um ano de trabalho» ou que «precisa de férias». Não querem entender que o problema é a sua saúde mental e não um simples desgaste profissional).

Para estas famílias, «o que não se vê não existe». Isto é: estar triste, ou sentir uma angústia frequente, poderão ser coisas irreais, se não estiverem relacionadas com algo imediato e concreto (por exemplo, ser reprovado num exame; ou o seu clube ter perdido um jogo de futebol). Também costumam ter um pragmatismo algo esquivo, quando se referem aos sentimentos negativos como «algo que já passou», não dando importância àquilo que para eles não é linear, ou de leitura simples. Os sentimentos, que são, em parte, realidades abstratas, chocam com a sua compreensão do mundo.

Esta limitação verifica-se no seu quotidiano familiar. Os seus membros não partilham as suas perceções ou opiniões sobre determinados aspetos menos «palpáveis» da vida. Simplesmente, evitam comunicar conteúdos «não visíveis»: ou seja, evitam expressar sentimentos. Isto tem os seus custos, quando algum deles fica emocionalmente perturbado. Em vez de o expressar, a sua tendência será a de reprimir-se, evitando que os outros se apercebam, ou isolando-se destes. O afastamento é a maneira mais simples de evitar a gestão de uma circunstância dolorosa.

Quando morre algum dos seus membros, estas famílias não dialogam sobre os sentimentos e emoções negativas que estão a viver. Frequentemente, a sua própria maneira de ser e de estar impõe um silêncio geral sobre a perda e até sobre a memória da pessoa que morreu. Geram uma espécie de tabu sobre a sua morte e parece, por vezes, que a pessoa que morreu, afinal, nunca chegou a existir. Qualquer referência à pessoa é apagada da vida quotidiana familiar, desde nunca falar dela a retirar, ou destruir, tudo o que lhe pertencia (por exemplo, fotografias, roupas, escritos, objetos pessoais). São evitadas as conversas que possam levar à referência por alguém, mesmo pessoas amigas ou conhecidas, à morte daquele membro, à sua personalidade, enfim, ao seu percurso de vida pessoal. Nem sequer o choro é tolerado.

Estas famílias chegam a viver um Luto Patológico, pois recusam-se a assumir a perda do seu ente amado. A sua estrutura não integra a ausência deste, parecendo que nem sequer existiu nela. Assim, a estrutura familiar mantém-se aparentemente a mesma, permanecendo igual o papel de cada membro. Ao fazer «desaparecer» o ente amado, estas famílias estão a dificultar os processos de luto pessoal de cada um dos seus membros. Estes vivem uma incapacidade de elaborarem, de forma normal, os próprios processos. Quando o membro que detém maior poder na estrutura (geralmente, o que maior censura impõe sobre as referências ao ente amado que se perdeu) deixa de exercer tanto poder, ou mesmo quando deixa de o fazer, estas famílias correm o risco de se desmoronarem, ou ficam muito debilitadas;

  • As famílias que expressam abertamente os seus sentimentos. Estas famílias têm por hábito integrar no seu quotidiano a partilha de sentimentos e emoções. Os seus membros, dos adultos às crianças, sentem que podem dialogar sobre o que vão sentindo, desde as alegrias até às tristezas. A morte de algum membro, apesar de ser muito dolorosa, tende a não provocar a degradação da estrutura familiar, que se mantém coesa graças à partilha sincera e franca do que sentem os seus membros. Os membros destas famílias ajudam-se mutuamente na perda, que aceitam como uma realidade à qual devem ajustar-se, promovendo as adaptações necessárias.

Os processos de luto de cada um dos seus membros são, assim, facilitados, podendo ser desenvolvidos de forma saudável, até porque cada um detém alguma experiência de gestão de sentimentos e de emoções, que reconhece e analisa com a prática de o fazer habitualmente, em família. Estas famílias estão, pois, capacitadas para serem o principal apoio da pessoa em luto.

Se uma família expressa abertamente os seus sentimentos, se aprende a gerir tensões e conflitos, e a lidar com os problemas de modo ágil e afetuoso, tenderá a unir-se na perda de um dos seus membros. Enfrentará, assim, aquele difícil acontecimento «em bloco», tomando-se forte pela união de cada um dos seus membros aos restantes. Os laços de solidariedade serão uma constante diária, permitindo, em parte, que o abalo sofrido pela própria estrutura familiar seja progressivamente reparado. Nestas famílias, o papel desempenhado pela pessoa que morreu poderá ser desempenhado por outro membro, que procurará responder a novos desafios.
Os processos de luto de cada membro, por sua vez, serão facilitados pela reação conjunta.

Cada membro saberá, assim, que não se encontra sozinho na sua perda. Os membros mais determinados tenderão a ajudar os membros mais débeis, partilhando a evolução feita nos processos. Estas famílias, geralmente, acolhem bem a ajuda de amigos e de profissionais e até a procuram, interessados em receber o seu apoio.

Por fim, numa mesma família pode haver membros que têm dificuldade em expressar sentimentos, e que exercem, até, alguma censura sobre os outros membros (por exemplo, um pai incapaz de lidar com a tristeza dos seus filhos, tentando, a todo o momento, que estes não a expressem, como se, assim, a fizesse desaparecer); e outros membros que, pelo contrário, o fazem com facilidade (por exemplo, uma mãe que procura, na ausência do pai, ajudar os filhos, conversando e compreendendo a sua tristeza). Estas famílias têm, ainda assim, um potencial de organização interna para fazer frente ao luto em conjunto, sobretudo se os seus membros com maior facilidade de expressão de sentimentos procurarem ajudar os outros a fazer o mesmo.

Outro aspeto importante para as famílias em luto pode ser a da partilha dos bens patrimoniais do ente amado ou a distribuição do valor obtido por indemnização. Os bens de um falecido são geralmente herdados pelos seus familiares, através de uma escritura de habilitação de herdeiros; e/ou em cumprimento das disposições testamentárias. Os herdeiros fazem, então, uma partilha dos bens móveis e imóveis, depois de chegarem a vários acordos entre si. Frequentemente, o inventário dos bens não é uma tarefa fácil e os acordos são muito difíceis, originando grandes tensões e até ruturas na família. A indemnização recebida pela morte do ente amado, seja privada ou concedida pelo Estado, pode originar também desentendimentos dentro da família, cujos membros entram em disputa pelo valor, mesmo quando há critérios definidos pelas entidades que a atribuem quanto aos graus de parentesco daqueles em relação à pessoa falecida. Em alguns casos, começa a verificar-se um crescendo de conflitos, engrossado por incompatibilidades relacionais anteriores. Na dor da perda, a fragmentação familiar é uma nova dor: perdem-se os laços, a convivência, a confiança e o apoio de familiares anteriormente próximos. Algumas pessoas lamentam-se, sobretudo, do egoísmo dos seus parentes, bem como da falta de respeito pela memória do ente amado comum. O processo de luto é, assim, dificultado.