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Diário de Notícias: "Como apoiar aqueles a quem mataram um familiar ou amigo?"

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Rede de Apoio da APAV tem um ano e já acompanhou 104 pessoas que viveram situações traumáticas por serem próximas de vítimas de homicídio. Técnicos tentam que "arrumem a cabeça" e aprendam a lidar com o medo e raiva.

"Uma morte é sempre "muito mais traumática quando se trata de um homicídio'', dizem os psicólogos. O luto só começa verdadeiramente após a sentença nos casos que vão a tribunal. O homem que matou o pai de Ricardo Martins acaba de ser condenado a 24 anos (o máximo são 25), mas ele não consegue descansar. Há perguntas sem resposta. Vale-lhe o apoio da Rede de Apoio aos Familiares e Amigos de Vítimas de Homicídio, criada pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) há um ano.

"Ajudou-me a arrumar a cabeça. Numa situação destas existe muita raiva, muita revolta e, para nós vítimas, a justiça nunca é suficiente, tanta explicar Ricardo. Nunca deixou de trabalhar um dia. "Se deixasse podia fazer uma asneira". embora tenha cometido erros que "não admitia a um estagiário". É mecânico de automóveis, tal como o pai, e mudou recentemente de emprego porque não conseguiu manter as comissões que faturava antes do homicídio. "Há contas do pai para pagar" e os haveres que tinha estão congelados porque não apareceu o corpo. O óbito só poderá registar-se 30 dias após a leitura da sentença. Emocionalmente é terrível: "Não tenho um corpo para fazer o funeral do meu pai!"

"O homicídio de alguém a quem se estava ligado por laços de afeto é seguramente uma das mortes mais traumáticas. (...) A morte por homicídio é sempre uma morte violenta. Pode despertar reações negativas extremas, como o medo, a raiva, o choque, o horror. A vida, que poderá não voltar a ser a mesma, terá de adaptar-se à realidade, prosseguindo em novas perspetivas. Por isso, é preferível que cada pessoa tenha, desde logo, um apoio de profissionais", defende o coordenador da Rede, Bruno Brito.

Ricardo Martins tem 27 anos e é uma das 104 pessoas apoiadas pela Rede desde janeiro de 2013. "Fiz-me um bocado difícil de início. Valeram as chamadas telefónicas e, chegou a uma altura, em que tinha esgotado todas as soluções. Estava a ir por aí abaixo", conta. Foi na Polícia Judiciária (PJ) que viu um panfleto da APAV. Os agentes insistiram para procurar esse apoio e que tem três vertentes: jurídico, social e psicológico. E Rosa Castro, a psicóloga que ficou com o seu caso, mostrou não desistir facilmente. Até porque o Ricardo não lhes fechou a porta.

"O Ricardo não sabe mas na PJ disseram-nos várias vezes para não desistir dele. É uma pessoa especial", assegura Bruno Brito, que coordena e faz a ponte entre os casos. O jovem ouve e fica surpreendido com o adjetivo, quer saber porquê: "São muitas as pessoas que durante muito tempo não conseguem continuar com a vida que tinham", justifica o técnico. Ele fez das fraquezas forças e ajudou na descoberta do homicida. José Mendes, 44 anos, conhecido da vítima e cuja companheira se terá relacionado com José Augusto Silva, o pai de Ricardo. Foi morto a 12 de maio de 2013, tinha 52 anos. Ricardo não falava com o pai desde 2009, o que lhe traz mais mágoa.

Foi um colega de trabalho do pai que lhe comunicou o desaparecimento. Participou o caso à GNR e investigou todas as pistas: movimentos das contas bancárias, pessoas com quem se relacionava, o que fazia fora do trabalho, acidentes de automóvel, fotos no Facebook, isto com a ajuda de um tio que veio do Gana. Como não obteve resposta da GNR apresentou queixa na PJ e a partir daqui foi rápida a resolução do crime. José Mendes convidou a vítima para almoçar em sua casa, em Santa Cruz. Matou-o com uma tesoura da poda, cortou o cadáver em pedaços, primeiro com um serrote e depois com uma motosserra, que queimou. Não confessou o crime e dele os juízes disserem ser frio e não revelar arrependimento.

"É normal sentir uma sensação de impotência. O Ricardo fez todo para se manter em pé, mas também para ajudar a investigação", diz o psicólogo. É o caso mais difícil que acompanham? Não. "Estando o Ricardo aqui seria bom dizer que sim. Em dez anos de experiência com estas situações verifico que a realidade supera a ficção", refere Bruno Brito.

PJ comunica a maioria dos casos

A Rede de Apoio aos Familiares e Amigos de Vítimas de Homicídio (RAFAVH) foi criada no âmbito do projeto europeu Caronte e tem protocolos com o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses e com a Polícia Judiciária. Esta polícia é quem indica mais pessoas para apoio, o que depende sempre da aceitação do próprio.

Inicialmente, muitas pessoas recusam ajuda, pensando que conseguem superar e, normalmente, o contacto com um segundo ou mais familiares faz-se depois de um ano de apoio ao membro inicial. Por exemplo, a irmã de Ricardo. de 18 anos, teve uma reunião e não apareceu mais nas instalações da APAV, onde são os encontros.

Entre as 104 pessoas apoiadas, a maioria (55) é familiar de uma pessoa assassinada, num total de 30 destes crimes, em muitos casos apoiam mais do que um familiar ou amigo. E ajudam 48 pessoas de 49 crimes de homicídio tentado. A Rede faz acompanhamento psicológico, mas também social e jurídico. Por exemplo, acompanhar os familiares das vítimas às sessões do tribunal ou ajudar a fazer o pedido de indemnização. "É uma resposta especializada, adaptando o modelo de intervenção da APAV, que combina o apoio prático, social, psicológico e jurídico às necessidades reais", explica Bruno Brito, o coordenador."

 Fonte: Diário de Notícias (12/Março/2014)