As Contra-Narrativas


O Papel na Prevenção e Combate à Radicalização


As narrativas alternativas e/ou as contra-narrativas são meios de comunicação-chave na prevenção e combate à radicalização e ao extremismo violento. A construção das narrativas, a seleção dos públicos-alvo, das mensagens-chave, dos canais de comunicação, dos/as comunicadores/as, são ações essenciais para a eficácia desta estratégia de prevenção e combate. De um ponto de vista teórico, as narrativas podem assumir diversas formas e ações, desde logo, a comunicação estratégica e diplomacia dos Estados, narrativas alternativas e contra-narrativas. Quaisquer destas ações visam desmistificar e desconstruir, de forma direta ou indireta, os discursos adotados e difundidos, online e offline, por indivíduos ou grupos radicais.

É essencial, no processo de construção da narrativa alternativa, contra-narrativa ou das ações de comunicação estratégica, perceber quais os indivíduos ou grupos vulneráveis, os fatores de risco de ordem psicológica, socioemocional, sociocultural e sociopolíticos que influem ou podem vir a catalisar o ingresso num processo de radicalização, e, bem assim, quais os fatores protetores que importam potenciar, as mensagens que importam desmistificar e desconstruir, quem melhor pode ser o/a transmissor das mensagens-chave e quais os canais mais comumente frequentados pelos públicos-alvo. Qualquer comunicação que vise oferecer uma narrativa alternativa ou uma contra-narrativa a discursos que veiculem mensagens ligadas ao extremismo, muito em particular o extremismo violento, deve ser concertada e estrategicamente divulgada pelos atores-chave – profissionais que quotidianamente contatam com os indivíduos ou grupos vulneráveis (profissionais de organizações da sociedade civil, de serviços de saúde, de serviços de proteção social, professores, associações de jovens, profissionais dos serviços e forças de segurança, autoridades locais).

As campanhas de contra-narrativa ou narrativa alternativa são, por isto, estratégias primordiais na prevenção e combate à radicalização e ao extremismo violento. Uma campanha desta natureza deve, assim, contar com o envolvimento e participação dos parceiros estratégicos acima mencionados, incluindo empresas de comunicação e marketing (digital) e especialistas em avaliação da eficácia da campanha na(s) mudança(s) que se procura produzir.

Conheça o guia prático para criação de campanhas de narrativa alternativa e a formação para gestores de campanha da APAV.

O Modelo GAMMMA+


O Modelo GAMMMA + foi desenvolvido pelo Grupo de Trabalho para a Comunicação e Narrativas (RAN C&N) da Radicalisation Awareness Network para apoiar a criação e implementação de campanhas de narrativa alternativa e contra-narrativa eficazes nas mudanças a produzir.

GAMMMA + é o acrónimo para:

  • G - Goal / Objetivo
  • A - Audience / Público-Alvo
  • M - Message / Mensagem
  • M - Messenger / Mensageiro(a)
  • M - Media / Canal(ais) de comunicação
  • A - Action / Ação
  • + - Monitorização e avaliação

De acordo com o modelo preconizado pela RAN, campanhas de comunicação eficazes devem contemplar as seguintes premissas:

  • Objetivos claros, realistas e mensuráveis;
  • As mensagens promovidas devem ser relevantes e o público-alvo considera o mensageiro credível;
  • A campanha trabalha com os meios preferenciais do público-alvo ou plataforma digitais, o que deve verificar-se também quando o público-alvo comunica preferencialmente offline;
  • Campanhas de narrativa na forma de monólogos é pouco provável que venha a ser eficaz na satisfação das necessidades de uma audiência que quer falar ou ser suplantada por uma injustiça real ou percecionada;
  • As campanhas devem oferecer um call to action para aqueles que queiram envolver-se na questão em análise, o que facilita a monitorização e avaliação;
  • Campanhas que visem mudar ideias ou oportunidades oferecem a oportunidade para um diálogo sustentável (quer online quer offline) entre aqueles/as que no público-alvo desejem conversar;
  • Campanhas que assegurem componentes de monitorização e avaliação desde o início podem vir a ser ajustadas se necessário e, uma vez terminadas, perceber se tiveram o impacto desejado;
  • Campanhas que produzem fluxos constantes de conteúdo com os quais o público-alvo possa interagir têm maior probabilidade de obtenção do impacto desejado. Autenticidade e quantidade são mais eficazes do que qualidade técnica;
  • Narrativas alternativas promovem perspetivas alternativas positivas, cursos de ação e modelos e promovem o pensamento crítico. Contra-narrativas, que têm por objetivo desconstruir propaganda extremista devem ser dirigidas a um público-alvo bem investigado e compreendido, que poderá estar já envolvido com conteúdo extremista.

#thisismystory



#thisismystory é o mote da campanha de narrativa alternativa, concebida e implementada no âmbito do projeto Counter@ct. A campanha de narrativa alternativa visa, através da técnica de storytelling, veicular exemplos positivos de integração de migrantes e refugiados, de diferentes nacionalidades e contextos socioculturais, nas comunidades em que se inserem.

Venha conhecer estas histórias! Esperamos que estes percursos, narrados na primeira pessoa, apoiem a desconstrução de preconceitos e sejam catalisadores de comunidades multiculturais, primadas pela tolerância e pelo respeito.


A Importância de Avaliar o Impacto


Monitorizar e avaliar o impacto de uma campanha de narrativa alternativa ou de contra-narrativa é essencial e benéfico por diversos motivos:

  • Permite ajustar e melhorar a eficácia da campanha ainda durante a sua fase de implementação, com base em dados concretos e feedback recolhido;
  • Facilita a demonstração do alcance, desempenho e impacto da campanha a partes interessadas (como sejam entidades financiadoras, por exemplo);
  • Possibilita deter informação/dados concretos para replicação ou ampliação do alcance inicialmente previsto para a campanha;
  • Permite retirar conhecimento e aprendizagens a partir dos indicadores/dados avaliados e experiência de gestão de uma campanha desta natureza, o que pode não só melhorar a eficácia de uma nova campanha como pode ser partilhado com outros.

Gerir uma Campanha de Contra-Narrativa


A gestão de uma campanha de narrativa alternativa ou de contra-narrativa deve ser cuidadosamente planeada, o que tem início no desenho do próprio conceito criativo. Planear implica, antes de mais, investigar, conhecer e compreender o público-alvo e as mudanças que a narrativa da veicular através da campanha pretende produzir, não sem considerar exaustivamente os factores individuais, contextuais e sociais da audiência a que se dirige a mensagem, para além de efeitos colaterais que podem surgir (e.g. atos e/ou mensagens discriminatórios/as, de intolerância ou de violência contra o público-alvo ou pessoas/grupos que lhe sejam próximos; atos e/ou mensagens ofensivas para quem promove a campanha e seus parceiros, entre outros que se explicam de seguida em mais detalhe). Importa, por isto e antes de mais, estudar em profundidade o público-alvo, os fatores de risco e os fatores protetores de entrada em processos de radicalização ou de extremismo violento, quais as suas preocupações e os seus ressentimentos, quais os canais preferenciais de comunicação, com quem e quando comunicam, quem são os seus pares ou figuras de referência/apoio.

Após melhor compreender o público-alvo, deve tentar compreender-se qual o contexto sociocultural e sociopolítico a nível local, nacional e até global. O contexto atual ou quaisquer acontecimentos fraturantes que exerçam mudanças ou afetem diretamente os contextos atuais em que se encontra o público-alvo, podem influir na eficácia da narrativa que se pretende oferecer.

A narrativa a transmitir deve, portanto, considerar as mudanças que se pretendem produzir e quais os fatores que podem influenciar, de forma positiva ou negativa, essas mudanças. Para uma campanha de narrativa alternativa ou de contra-narrativa ser eficaz, e tendo por base o Modelo GAMMMA +, é ainda essencial que seja delineado um plano de monitorização e de avaliação, com base em indicadores de medida realistas e mensuráveis. Não se deve, contudo, estabelecer um plano de monitorização e avaliação que se cinja a métricas de envolvimento do público-alvo com a campanha. Deve-se, sempre que possível, fazer um pré-teste e aferir, através de grupos-focais, por exemplo, junto público-alvo, quais as suas perceções e reações à mensagem e à narrativa que se pretende transmitir. Mais do que avaliar métricas, deve delinear-se um plano de avaliação que permita aferir os impactos produzidos.

É ainda de extrema relevância, aquando da fase de planeamento, considerar a possibilidade de ocorrência dos chamados backfire effects. Os backfire effects ocorrem, sobretudo, quando numa campanha de contra-narrativa se procura desmistificar e/ou desconstruir mitos. De acordo com a literatura, refutar informação envolve lidar com processos cognitivos extremamente complexos. Assim, é necessário perceber de que forma os indivíduos processam informação, como modificam o conhecimento que detêm e como as suas perspetivas sobre o mundo afetam a sua capacidade de pensar de forma racional. Se tal não for considerado, corre-se o risco de inadvertidamente reforçar a informação e/ou os mitos que se pretendiam desconstruir em primeiro lugar. Podem ainda assinalar-se um conjunto de consequências, online e offline, como o surgimento de: discurso de ódio; discursos polarizados e até de incitamento à violência; cibercriminalidade; ofensas à integridade física ou outros crimes contra o público-alvo.

Outra fase essencial no processo de planeamento de uma campanha desta natureza é a de categorizar as interações/comentários dos indivíduos que, em regra, se dividem em quatro tipos: (i) comentários de apoio; (ii) construtivos; (iii) negativos; (iv) antagónicos. Esta categorização permite a qualquer gestor de campanha planear uma estratégia de resposta para cada uma das formas mais comuns de interação e, até, produzir um conjunto de respostas-tipo. A estratégia de resposta a aplicar deverá ter em consideração o contexto específico e o teor do comentário/interação, que pode vir a ser: apagado, denunciado, ignorado ou respondido. Qualquer das estratégias de resposta deve ser cuidadosamente considerada, sobretudo se poder vir a desencadear backfire effects.

Neste processo de planeamento e de gestão de uma campanha de narrativa alternativa ou contra-narrativa é ainda, de extrema importância, estabelecer sinergias com todos os stakeholders relevantes. De entre uma grande multiplicidade, destacam-se os profissionais das organizações da sociedade civil e profissionais de outras entidades que quotidianamente contatam e trabalham com os públicos mais vulneráveis à radicalização e ao extremismo violento, para além de profissionais dos serviços e forças de segurança, empresas de comunicação e marketing (digital e não digital), especialistas em monitorização e avaliação de impacto.



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