Radicalização


Definição


O conceito “radicalização” não é consensualmente definido pela comunidade científica ou pelos profissionais ligados a estruturas, comunidades ou indivíduos que diariamente contatam com públicos considerados particularmente vulneráveis ao fenómeno. Pese embora a diversidade de definições, radicalização é mais comumente definida como o processo através do qual uma pessoa vai, de forma progressiva, polarizando as suas perspetivas ideológicas ou políticas que estão, em regra, desfasadas daquelas maioritariamente reconhecidas pelo grupo, comunidade ou sociedade a que pertence.

Nem todos os processos de radicalização conduzem a atos de violência. É praticamente consensual que que a radicalização violenta resulta de um processo complexo a envolver uma variedade de fatores que, quando combinados, poderão levar pessoas ou grupos a praticar atos de violência ideologicamente ou politicamente motivados. Os atos de terrorismo são um exemplo deste tipo de violência.

Assim, a radicalização violenta resulta da aceitação da violência como meio legítimo de posicionamento ou de persecução de objetivos políticos e/ou ideológicos que, inevitavelmente terá características próprias e depender das convicções pessoais de indivíduos ou grupos.

Tipos de grupos radicais


Tipos de Grupos Radicais

Principais Preocupações/Motivações

Exemplos

Grupos Nacionalistas ou Separatistas

A segurança do território para o próprio grupo

ETA (Espanha), IRA (Irlanda), Conflito Palestina/Israel, PKK (Turquia), Tamil Tigers (Sri Lanka), ISIS (Síria e Iraque)

Grupos de Extrema Direita

Salvaguardar o estatuto elevado da “raça Branca” que se perceciona estar ameaça pelos/as imigrantes

Klu Klux Klan (E.U.A), Pegida (Alemanha)

Grupos de Extrema Esquerda

Alcançar uma justa distribuição da riqueza com a perceção de que o capitalismo é a fonte de todo o mal

FARC (Colômbia), Baader-Meinhof Group/Red Army Fraction (Alemanha), a Red Brigade (Itália), o Revolutionary People’s Liberation Party (Turquia)

Grupos que Defendem uma Causa Única

A principal preocupação foca-se num determinado tópico em particular (não numa ideologia), como o ambiente, os direitos dos animais ou o aborto

Earth Liberation Front (UK), Animal Liberation Front (vários países), Army of God (E.U.A)

Grupos com Motivações Religiosas

Aderem a uma estrita interpretação da sua religião para justificar violência contra os que consideram infiéis

ISIS (Síria e Iraque), Al Qaida (vários países), Army of God (E.U.A)

O Processo de Radicalização


O processo de radicalização tem sido alvo de estudo quer por forças e serviços de segurança a nível global quer por académicos, em estudos longitudinais e empíricos, sendo as conceções sobre o fenómeno múltiplas. Não obstante, é comumente aceite que o processo de radicalização ocorre de forma progressiva e é influenciado ou catalisado por fatores micro, meso e macro, isto é, por fatores individuais, ao nível da família, grupos de pares e comunidade e, ainda, pela sociedade como um todo quer a nível nacional quer a nível global. Existem, bem assim, fatores de risco e fatores protetores em qualquer processo de radicalização. É de sublinhar que nem todos os processos de radicalização conduzem ao extremismo violento e, assim, ao cometimento de atos de violência.


Da Radicalização ao Extremismo Violento



Nem todos os processos de radicalização culminam em extremismo violento ou conduzem ao cometimento de atos de violência. Houve, na história, vários movimentos resultantes de processos de radicalização que originaram mudanças fundamentais nas sociedades globais (e.g. movimentos em defesa da igualdade de género; movimentos pela promoção e defesa dos direitos humanos). No entanto, tem havido uma preocupação crescente com o número de processos de radicalização que resultam em atos de violência e de extremismo violento, cuja visibilidade, imprevisibilidade, impacto nas vítimas e na segurança de Estados, assumem uma dimensão que merece o empenho incansável de todos os atores-chave quer em matéria de prevenção quer em matéria de combate.


De acordo com o enquadramento conceptual do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PDNU), são oito os catalisadores que podem levar ao comportamento radical e resultar em extremismo violento:

1. o papel e o impacto das políticas globais;

2. exclusão económica e oportunidades limitadas para mobilidade vertical;

3. exclusão política e diminuição do espaço cívico;

4. desigualdades, injustiça, corrupção e violação de direitos humanos;

5. desencantamento com sistemas socioeconómicos e políticos;

6. rejeição de uma diversidade crescente na sociedade;

7. fraca capacidade do estado e falta de segurança;

8. uma estrutura global em mudança e banalização da violência nos media e no entretenimento.

Para além dos fatores acima expostos, o PDNU dá ainda ênfase a mecanismos estratégicos de manipulação e aos processos de socialização que os acompanham (através da comunicação social, escolas, família, organizações religiosas e culturais), que são viabilizadas por fatores pessoais, psicológicos e emocionais como a alienação, a procura de identidade, de sentido de justiça, perda de um familiar, maus-tratos prévios, situação prévia de prisão, entre outros. São ainda determinantes nos processos de radicalização violenta a falha nos processos de inclusão social, o que deixa os indivíduos mais vulneráveis e mais permeáveis a crenças ou atitudes mais radicais e violentas.


A Radicalização Online



A internet tem assumido um papel-chave em várias esferas da vida das sociedades, assumindo-se como um espaço de estudo, de trabalho, de aquisição de bens e serviços, de procura e partilha de informação, de informação noticiosa e, até, com um forma comum de sociabilização. A radicalização não é alheia a este paradigma, assumindo a internet um forte veículo de difusão de narrativas e propaganda extremista (imagens, vídeos, músicas, mensagens, memes, etc.). Pese embora a radicalização online tenha elevada preponderância, quer pelo anonimato quer pela fácil disseminação, rapidez e longo alcance das narrativas/propaganda, não pode ser entendida como explicação mono-causal e espaço único para a ocorrência do processo de radicalização ou do envolvimento em atos de extremismo violento. A utilização da internet por grupos radicais foi já alvo de interesse e foco de diversos trabalhos académicos, nomeadamente sobre quais os comportamentos adotados para difusão de conteúdo e propaganda, categorização desses comportamentos e até estudos de caso junto de indivíduos radicalizados por diferentes grupos extremistas. Operam-se, assim, comportamentos de instrumentalização da utilização da internet para efeitos de logística e reconhecimento, angariação de fundos, disponibilização de manuais de formação e vídeos, bem como para fins comunicacionais, designadamente publicitação da causa, angariação de apoiantes e para recrutamento. Não houve, no entanto, espaço ainda para o estudo da frequência destes comportamentos e a sua relação com outros fatores causais de ingresso em atos de extremismo violento. A radicalização que decorre nas plataformas digitais deve, por isto, ser lida como um dos múltiplos fatores críticos confluem inter-cruzadamente no processo de radicalização.

Não obstante, a radicalização online, dada a preponderância que assume, deve ser reconhecida, prevenida e combatida. As narrativas extremistas tendem a focar-se numa conjunto de narrativas ideológicas, políticas, morais, religiosas ou sociais, com base numa série de ressentimentos (grievances) reais ou imaginários. A forma como as narrativas são difundidas é variada, sendo veiculados por meio de ferramentas e técnicas de multimédia num vasto número de plataformas como o Facebook, Twitter, YouTube, WhatsApp, Telegram, Videojogos, entre muitos outros canais.


As mensagens-chave e as estratégias utilizadas divergem de grupo para grupo, ainda que haja um conjunto de mensagens comuns:

  • Dever: de proteger, de vingar, de defender algo, de defender irmãos e irmãs;

  • Vitimização: “tu e os teus” são vítimas de agressão e devem defender-se;

  • Recompensa religiosa: “Deus” recompensa aqueles que cumprem a sua obrigação de defender a fé;

  • Identidade pessoal: verdadeiros homens/mulheres/ crentes estão dispostos/as a usar a resistência e a violência;

  • Pertença: é importante ser parte de um grupo e enfrentar a oposição;

  • Sentido de propósito: para “ a tua” vida ter um sentido é necessário que te juntes à causa/luta;

  • Aventura: fazer parte da “causa/luta” é uma aventura heroica e trará reconhecimento/fama.

As narrativas extremistas utilizam ainda técnicas comuns de propaganda como:

  • Bandwagon: encorajamento dos indivíduos para se misturarem com a multidão (não sobressair);
  • Bodes expiatórios: culpabilizar um determinado grupo pelos problemas;
  • Oferecem uma “escolha”: convencer os alvos de que a “escolha” que está a ser oferecida é a única escolha lógica/racional;
  • Afirmação: apresentar informação como se de que factos se tratassem, quando há espaço para interpretações várias;
  • Transferência: aplicar sentimentos ou perspetivas sobre um determinado assunto num outro assunto;
  • Omissão: ocultar factos que, de outra forma, alterariam por completo o sentido da mensagem.

Radicalisation Awareness Network



A Radicalisation Awareness Network (RAN) é uma rede de profissionais de primeira linha, financiada pelo Fundo para a Segurança Interna da Comissão Europeia, organizados em Grupos de Trabalho Temáticos onde podem partilhar conhecimento, experiências, abordagens inovadoras, revisão entre pares do trabalho desenvolvido na prevenção e combate ao extremismo violento. Os profissionais que integram os vários Grupos de Trabalho – representantes de organizações da sociedade civil, polícias e guardas prisionais, trabalhadores sociais, profissionais de saúde, professores, jovens, representantes de autoridades locais – trabalham diariamente quer com públicos vulneráveis à radicalização quer com aqueles/as que já sofreram processos de radicalização.

Os Grupos de Trabalho da RAN refletem a complexidade do fenómeno da radicalização e a necessidade multinível e multisectorial para a sua prevenção e combate, quer ao nível dos Estados e das comunidades quer ao nível transfronteiriço, de cooperação entre profissionais e Estados-Membros e até a comunidade global. São eles:

- Comunicação e Narrativas (RAN C&N);

- Juventude e Educação (RAN Y&E);

- Reabilitação (RAN Rehabilitation);

- Autoridades Locais (RAN LOCAL);

- Prisões (RAN PRISIONS);

-Vítimas de terrorismo (RAN VoT);

- Saúde (RAN HEALTH);

- Famílias, comunidades e trabalho social (RAN FC&S);

- Steering Committee.

Para saber mais sobre as atividades da RAN e de cada um dos grupos de trabalho, por favor clique aqui.

Parceiros


 

A ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE APOIO À VÍTIMA

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